Elogio das pequenas coisas
Há o tempo das grandes ambições e o tempo da
sabedoria, quando passamos a fazer o elogio das
pequenas coisas. A felicidade pode ser fazer uma
viagem ao outro lado do mundo, mas é também
caminhar no parque todo dia ou, se for o caso,
uma vez por semana ou duas vezes por mês. Não
importa. Há o tempo das atividades controladas,
monitoradas por especialistas, voltadas para
atingir metas corporais. Há também aquilo que
se faz pela mente, a caminhada para espairecer,
olhar a natureza, respirar ar puro, pensar na vida,
passar o tempo, desligar-se do celular, deixar-se
levar bifurcando ao som do vento.
Ser feliz, quando chega o tempo da
compreensão da importância das pequenas
coisas, é ir ao estádio com um velho amigo, ver
jogar o time do coração, com o coração menos
interessado na vitória obrigatória do que no
momento compartilhado, contando o percurso,
a ida e a volta, o intervalo, as lembranças, os
assuntos postos em dia. Há o tempo de querer
descobrir novos lugares, sempre mais longes,
e o tempo de curtir velhos recantos, bastante
próximos. Há quem considere a valorização
das pequenas coisas como acomodação. Há
quem veja na obrigação de rodar o mundo uma
imposição da indústria do turismo. O que importa
mesmo é que cada um encontre um passatempo,
uma paixão.
Há o tempo dos grandes voos no escuro e o
tempo dos pequenos passos no clarão da manhã.
Tudo vale quando o coração se agiganta para
aninhar as coisas que não têm preço e por isso não
podem ser compradas. Há o tempo das vaidades
incontroláveis e o tempo de estender a mão,
cancelar inimizades, pedir perdão, deslumbrar-se
com o sol caindo sobre o rio, fazer trilhas sob a
lua cheia, voltar ansioso para o Natal em família,
saudar ano novo com amigos, pertencer a alguma
coisa, um clube, uma confraria, uma tradição,
uma roda qualquer. Há o tempo de esquecer de
mandar flores, o tempo de encomendar flores
pelo telefone e o tempo de andar orgulhoso pelo
bairro com flores nos braços. Há o tempo de
romper com o cotidiano, de acumular milhas de
avião sem tempo de usá-las e o tempo de amar a
sua rua, cumprimentar os vizinhos, amar a aldeia
e andar mais lentamente.
Adaptado de:<https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/ elogio-das-pequenas-coisas-1.374386> . Acesso em 24 out. 2019.