Leia o texto, para responder às questões de números 01 a 12.
Fogo de palha ou surto de hashtag?
Num mundo em que nem os números, ou nem sequer
os satélites, são confiáveis, ai de nós que queremos formar
uma ideia sobre acontecimentos importantes, ainda
que apenas modestamente parecida com a realidade. A
Amazônia está pegando fogo inteirinha, como aparece naqueles
mapas em que os focos são colocados em tamanho
perceptível aos olhos, mas evidentemente não compatível
com o da vida real? Os incêndios aumentaram 1 quatrilhão
por cento? A culpa é de Fulano? Para facilitar um pouco a
vida dos obcecados que têm mania de fazer perguntas e não
esperar respostas fáceis, alguns filtros podem ser aplicados,
em várias situações, na tentativa de distinguir fatos e suas
infinitas interpretações.
Fator hashtag. Está bombando nas redes sociais e não
é um gatinho adorável? Desconfie, desconfie muito. É bom
ter um canal para expressar sentimentos e opiniões. #metoo,
#timesup ou #prayforamazonia são exatamente isso. Servem,
dessa forma, para avaliar humores emocionais, não como um
prognóstico infalível. Outra pequena dica: gente que nunca
rezou por nada e de repente se prostra diante do divino por
causa da floresta é como certos candidatos que vão à missa
e até comungam em véspera de eleição.
Fator fofura. Apresentadores ou influenciadores se emocionam
e ficam com a voz embargada? Estão tratando de
Greta Thunberg, a adolescente sueca em que tantos adultos
querem acreditar, ou de macaquinhos indianos chamuscados
e transportados por pensamento mágico para a floresta brasileira.
Os ultrassensíveis, programados, como todos os humanos,
para se comover com filhotes de mamíferos, moram
bem longe dela. De perto, independentemente de sua importância
e de seus prodígios, as florestas sempre foram fonte
de temor. Ah, sim, se aparecer alguém usando cocar, a coisa
está perdida. Índios não usam cocar no dia a dia, exceto para
efeitos midiáticos.
Fator uma semana. Passaram-se sete dias e o acontecimento,
sem ter mudado em sua essência, sumiu do mapa.
Depois do pico do fogo de palha, existe uma tendência a falar
mais francamente. Registrem-se as manifestações a favor do
“intervencionismo ambiental”. Escreveu um valente professor
americano, Lawrence Douglas, comparando-o ao intervencionismo
humanitário: “A comunidade internacional precisa
assumir a responsabilidade – não, em primeira instância,
aplicando a força militar, mas através de sanções comerciais
e boicotes econômicos”. Por incrível coincidência, 46 deputados
e dezessete ONGs da França propuseram sanções contra
a soja e a carne importadas do Brasil. Não é só aqui que
tem bancada ruralista.
(Vilma Gryzinski, Veja, 11.09.2019. Adaptado)