TEXTO III
O cigarro eletrônico
Inalar a fumaça liberada na combustão do cigarro é o
mais mortal dos comportamentos de risco no Brasil.
Não é de hoje que os fabricantes procuram uma forma
de administrar nicotina, sem causar os malefícios da
queima do fumo nem tirar o prazer que o dependente
sente ao fumar. E, acima de tudo, sem abrir mão do lucro
obtido com a droga que provoca a mais escravizadora
das dependências químicas conhecidas pela medicina.
Com essa finalidade, foram lançados no comércio
os cigarros eletrônicos, uma coleção heterogênea
de dispositivos movidos a bateria que vaporizam
nicotina, para ser fumada num tubo que imita o cigarro.
Em menos de dez anos, as vendas na Europa atingiram
650 milhões de dólares e 1,7 bilhão nos Estados Unidos.
O sucesso tem sido tão grande, que alguns especialistas
ousam predizer que o cigarro convencional estaria com
os dias contados.
Na literatura médica, entretanto, as opiniões são
divergentes.
1) Os detratores
A demonstração de que fumantes passivos correm mais
risco de morrer por ataque cardíaco, derrame cerebral,
câncer e doenças respiratórias, deu origem à legislação
que proibiu o fumo em lugares fechados, providência
que beneficiou fumantes e abstêmios.
Especialistas temem que esse esforço da sociedade seja
perdido, quando os cigarros eletrônicos forem anunciados
em larga escala pelos meios de comunicação.
Comerciais exibidos recentemente nas TVs americanas
justificam a preocupação: “Finalmente, os fumantes
têm uma alternativa real” ou “Somos todos adultos,
aqui. É tempo de tomarmos nossa liberdade de volta”.
Mensagens como essas não seduzirão as crianças,
como aconteceu com as campanhas de cigarros anos
atrás?
Os Centers for Diseases Control, nos Estados Unidos,
revelaram que embora o consumo de cigarros comuns
entre adolescentes americanos tenha caído, entre 2011
e 2012, o de eletrônicos duplicou.
Não existe padronização na quantidade de nicotina
vaporizada pelas diferentes marcas de eletrônicos; nem
controle de qualidade. Os testes mostram que alguns
conseguem liberar o dobro ou o triplo de nicotina, em
cada tragada.
Ainda não há comprovação científica de que o
cigarro eletrônico substitua os convencionais.
O uso concomitante pode levar ao consumo de doses
exageradas de nicotina, eventualmente próximas de
limites perigosos.
Na falta de melhor alternativa, o cigarro eletrônico
pode ser uma forma menos maligna de lidar com a
dependência de nicotina. Mas, é preciso criar com
urgência uma legislação para lidar com ele.
2) Os defensores
Consideram que o cigarro eletrônico se enquadra nas
chamadas estratégias de redução de riscos, semelhantes
às de distribuição de seringas para usuários de drogas
injetáveis, adotadas como medida de prevenção à aids.
Há quem acredite que, ao lado de outras formas de
administrar nicotina sem utilizar combustão (chicletes,
pastilhas e adesivos), os dispositivos eletrônicos têm
potencial para se tornar um dos maiores avanços na
história da saúde pública.
Para eles, o vapor de nicotina inalado através do cigarro
eletrônico mimetiza as experiências prévias do fumante,
sem deixar de estigmatizar o cigarro comum.
Lembram que no mundo ocorrem seis milhões de óbitos
por ano, por causa do fumo, e que as previsões para o
século 21 não poderiam ser mais sombrias: um bilhão
de mortes, predominantemente entre os mais pobres e
menos instruídos.
Defendem que a estratégia de reduzir, mesmo sem
eliminar, o risco de morte associado ao cigarro, é um
imperativo moral.
Difícil não reconhecer que os dois lados apresentam
argumentos consistentes.
Minha opinião é de que os cigarros eletrônicos devem
obedecer a leis que os obriguem a passar por controle de
qualidade, que proíbam fumá-los em bares, restaurantes,
escritórios e outros espaços públicos fechados, e que
vedem a publicidade pelos meios de comunicação de
massa.
Seria fundamental, ainda, proibir que os fabricantes
adicionassem mentol, essências de morango, baunilha
ou chocolate, para torná-los mais palatáveis às crianças,
prática criminosa que a Anvisa não consegue impedir
que a indústria do fumo continue utilizando no cigarro
comum.
Na falta de melhor alternativa, o cigarro eletrônico
pode ser uma forma menos maligna de lidar com a
dependência de nicotina. Mas, é preciso criar com
urgência uma legislação para lidar com ele.
Disponível em:<https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/o-cigarro-eletronico-artigo/>. Acesso em: 2 out. 2019.