A comunicação animal
“Como hoje frequentemente se afirma
que a linguagem é exclusiva do homem, é
atividade puramente humana e o elemento que
o distingue dos seres inferiores pois o homem
pode ser definido como um animal que fala, não
seria demais fazermos algumas rápidas
considerações sobre a comunicação animal por
meio de gritos, justamente para contrapô-la à
linguagem humana.
Em primeiro lugar, não será necessário
levar em conta que certos animais (alguns tipos
de macacos e aves) são capazes de reproduzir
palavras ouvidas ou outros sons como também
são capazes de entender certas ordens.
Convenhamos que, nesta “aprendizagem”, não
há nenhuma operação mental que permita aos
“aprendizes” reter o conceito dos conjuntos
sonoros emitidos. Não nos consta que dois
papagaios conversem entre si em linguagem
humana aprendida. (...)
Embora certos gritos, pios e cantos
correspondam a estados gerais de alegria,
espanto, dor ou apetite e possam ser quase
traduzidos em linguagem humana (como no
português, por exemplo, onde há verbos
especiais para traduzir os diversos gritos do cão
– ladrar, uivar, ganir), os animais não emitem
frases nem fazem variar seus gritos como nós o
fazemos com nossas palavras, que podem ser
substituídas no enunciado comunicativo. (...)
Por isso, o grito animal é instintivo e não
aprendido, não está sujeito a transformações
como a linguagem humana. Que é instintivo,
facilmente se observa. Isolando-se um gatinho
do convívio de seus semelhantes, fatalmente ele
acabaria miando. E o homem não nasce falando.
Que não se transforma também é fácil verificar.
O ladrar do cão teria sido, em eras remotas,
diferente do que é hoje?”
(BORBA, Francisco da Silva. Op. Cit., p. 40-1.)