Leia o texto.
Sempre fora invejosa; com a idade aquele sentimento
exagerou-se de um modo áspero, invejava tudo na
casa: a sobremesas que os amos comiam, a roupa
branca que vestiam. As noites de soirée*, de teatro,
exasperavam-na. Quando havia passeios projetados,
se chovia de repente, que felicidade! O aspecto das
senhoras vestidas e de chapéu, olhando por dentro
das vidraças com um tédio infeliz, deliciava-a, fazia-a
loquaz:
— Ai, minha senhora! É um temporal desfeito!
É a cântaros, está para todo o dia! Olha o ferro!
E muito curiosa; era fácil encontrá-la, de repente,
cosida por detrás de uma porta com a vassoura a
prumo, o olhar aguçado. Qualquer carta que vinha era
revirada, cheirada… Remexia sutilmente em todas as
gavetas abertas; vasculhava em todos os papéis atirados.
Tinha um modo de andar ligeiro e surpreendedor.
Examinava as visitas. Andava à busca de um segredo,
de um bom segredo! Se lhe caía um nas mãos!
Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer
bem, de petiscos, de sobremesas. Nas casas em que
servia ao jantar, o seu olho avermelhado seguia avidamente
as porções cortadas à mesa; e qualquer bom
apetite que repetia exasperava-a, como uma diminuição
de sua parte. De comer sempre os restos ganhava
o ar agudo – o seu cabelo tomara tons secos, cor de
rato. Era lambareira: gostava de vinho; em certos dias
comprava uma garrafa de oitenta réis, e bebia-a só,
fechada, repimpada, com estalos da língua, a orla do
vestido um pouco erguida, revendo-se no pé.
Eça de Queirós. O primo Basílio
*espécie de reunião social