O instrumento musical
Às 15 horas de segunda-feira, 9 de novembro de 1964,
os poemas de Cecília Meireles alcançaram perfeição
absoluta. Não há mais um toque de sutileza a acrescentarlhes, nem sequer um acento circunflexo a suprimir-lhes –
aquele acento que ela certa vez, em um poema, retirou de
outro poema com a leveza de mão de quem opera uma
borboleta. Não virão outros versos fazer-lhes sombra ou
solombra. O que foi escrito adquiriu segunda consistência,
essa infrangibilidade que marca o definitivo, alheio e
superior à pessoa que o elaborou.
Vendo-os desligar-se de sua matriz humana, é como se
eu os visse pela primeira vez e à luz natural, sem o enleio
que me despertava um pouco o ser encantado ou
encantador, chamado Cecília Meireles. Falo em
encantamento no sentido original da palavra, “de que há
muitos exemplos nos Livros de Cavalaria, e Poetas”. Não
me parecia criatura inquestionavelmente real; por mais
que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós,
marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me
a impressão de que ela não estava onde nós a víamos,
estava sem estar, para criar uma ilusão fascinante, que nos
compensasse de saber incapturável a sua natureza.
Distância, exílio e viagem transpareciam no sorriso
benevolente com que aceitava participar do jogo de boas
maneiras da convivência, e era um sorriso de tamanha
beleza, iluminado por um verde tão exemplar de olhos e
uma voz de tão pura melodia, que mais confirmava, pela
eficácia do sortilégio, a irrealidade do indivíduo.
Por onde erraria a verdadeira Cecília, que,
respondendo à indagação de um curioso, admitiu ser seu
principal defeito “uma certa ausência do mundo”? Do
mundo como teatro em que cada espectador se sente
impelido a tomar parte frenética no espetáculo, sim; não,
porém, do mundo de essências, em que a vida é mais
intensa porque se desenvolve em estado puro, sem atritos,
liberta das contradições da existência. Estado em que a
sabedoria e beleza se integram e se dissolvem na perfeição
da paz.
Para chegar até ele, Cecília caminhou sobre formas
selecionadas, que ia interpretando mais do que
descrevendo; suas notações de natureza são esboços de
quadros metafísicos, com objetos servindo de signos de
uma organização espiritual onde se consuma a unidade do
ser com o universo. Cristais, pedras, rosicleres, flores,
insetos, nuvens, peixes, tapeçarias, paisagens, o escultural
cavalo morto, “um trevo solitário pesando a prata do
orvalho”, todas essas coisas percebidas pelo sentido são
carreadas para a região profunda onde se decantam e
sublimam. Nessa viagem incessante, para além da Índia,
para além do mistério das religiões e dos sonhos, Cecília
Meireles consumiu sua vida. Não é de estranhar que a
achássemos diferente do retrato comum dos poetas e das
mulheres.
Revisitando agora a imaculada galeria de seus livros
desde Viagem até os brincos infantis de Ou Isto ou Aquilo,
passando pelas estações já clássicas de Vaga Música, Mar
Absoluto e Retrato Natural, penetrando no túnel
lampejante de Solombra, é que esta poesia sem paridade
no quadro da língua, pela peregrina síntese vocabular e
fluidez de atmosfera, nos aparece como a razão maior de
haver existido um dia Cecília Meireles. A mulher
extraordinária foi apenas uma ocasião, um instrumento,
afinadíssimo, a revelar-nos a mais evanescente e precisa
das músicas. E esta música hoje não depende de
executante. Circula no ar para sempre.
(ANDRADE, C. Drummond. Cadeira de Balanço. Rio de Janeiro: José
Olympio Editora, 1978, p. 138-139.)
“por mais que aferisse os traços positivos de sua presença
entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade,
restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a
víamos” (2º §).
No fragmento de período acima, a 1ª oração, introduzida
pela locução conjuntiva “por mais que”, exprime o sentido
de: