A uma senhora
Com que então, minha senhora, está fazendo mais um
ano de casada. Não lhe mando flores, que a distância não
permite. Telefonar custa uma pequena fortuna, e ruídos
errantes entram na conversa, abafando as vozes; nada
mais enervante do que sentir a voz sem poder captá-la, ou
recolher somente pedaços de frase, palavras soltas. Não
lhe mando telegrama, pois a senhora mesmo o dispensou:
costuma não chegar, seja porque há crise política por aqui,
seja que há crise militar por aí, e vice-versa; ou as duas
crises juntas nos dois lugares. E telegrama está sempre
omitindo, calando; de tanto calar, não exprime nada. Por
isso, escrevo-lhe. Carta leva quatro dias para chegar. Tanto
melhor: quando a receber, estará pensando em outra
coisa. Se fosse pelo correio, reconheceria logo a letra no
envelope. Indo pelo jornal (astúcia minha), lerá
desprevenida as primeiras linhas, até descobrir: “É
comigo”.
É com a senhora mesmo e com seu marido que estou
falando, mas tenho motivo especial para dirigir-me aos
dois por seu intermédio. Conheço-a há bem mais tempo do
que a ele. Posso dizer, sem exagero, que a vi nascer;
quando ele me apareceu, era homem feito e vinha trazido
pela senhora. Aprovei a escolha, porque função de amigo é
aprovar; e acho que não andei mal. A prova é esta carta.
Estou me lembrando de como as coisas se passaram.
Tudo é tão liso na vida de uma pessoa; os dias repetem os
dias; de súbito não repetem mais. A pessoa é a mesma; os
fatos mudam. A senhora levava uma vidinha tranquila de
estudante, ganhara bolsa em Paris, não era de coquetéis;
por desfastio, foi a um, conheceu lá um fulano que lhe
falou qualquer coisa; não era conversa de pegar, pegou.
Tratava-se de ilustre desconhecido, ou antes, de dois
ilustres desconhecidos um para o outro. Ele estava de
passagem e voltou logo para o seu país. Assim
desconhecidos, um mês depois se casavam, à base de
intuição e maluquice. Paris foi trocada por outra cidade, de
outra nação. Ficamos sem a senhora e nem nos
queixamos; obrigação de amigo é não se queixar. Eu
aprendera sozinho: vida é aceitação.
Os dois malucos conheceram o delicioso e o difícil, a
rotina e a quimera, os problemas, as melancolias, os
sustos, as angústias, as distrações infantis que vêm depois
das angústias; no total, viveram. A população do globo foi
aumentada pelos dois em escala razoável: nem muito nem
com avareza. Daqui estou ouvindo, ou esperando ouvir, na
visita do ano, os gritos de três molequinhos que me julgam
uma peça arqueológica simpática. Também me divirto com
eles, nesse período; e com isso, e com as demais
presenças, embalo a falta da senhora no resto do ano. Pois
amigo deve ter imaginação suficiente para fazer, de falta,
companhia.
A senhora, seu marido e os moleques recebam este
abraço absolutamente real.
(ANDRADE, C. Drummond de Cadeira de balanço. 11 ed. Rio de Janeiro: J.
Olympio Editora, 1979, p. 142-143.)