A perfeição (adaptado)
O susto de reencontrar alguém que não vemos
há anos é o impacto do tempo. O desmanche alheio
incomoda? Claro que não, apenas o nosso refletido na
hipótese de estarmos também daquele jeito. Há
momentos nos quais o salto para o abismo do fim
parece mais dramático: especialmente entre 35 e 55.
(...)
Agatha Christie deu um lindo argumento para
todos nós que envelhecemos. Na sua Autobiografia,
narra que a solução de um casamento feliz está em
imitar o segundo casamento da autora: contrair núpcias
com um arqueólogo (no caso, Max Mallowan), pois,
quanto mais velha ela ficava, mais o marido se
apaixonava. Talvez o mesmo indicativo para homens e
mulheres estivesse na busca de geriatras,
restauradores, historiadores, egiptólogos ou, no limite,
tanatologistas.
Envelhecer é complexo, a opção é mais
desafiadora. O célebre historiador israelense Yuval
Harari prevê que a geração alpha (nascidos no século
em curso) chegará, no mínimo, a 120 anos se obtiver
cuidados básicos. O Brasil envelhece
demograficamente e nós poderíamos ser chamados de
vanguarda do novo processo. Dizem que Nelson
Rodrigues aconselhava aos jovens que
envelhecessem, como o melhor indicador do caminho
a seguir. Não precisamos do conselho pois o tempo é
ceifador inevitável. (...)
Como em toda peça teatral, o descer das
cortinas pode ser a deixa para um aplauso caloroso ou
um silêncio constrangedor, quando não vaia
estrondosa. É sabedoria que o tempo ensina, ao retirar
nossa certeza com o processo de aprendizado. Hoje
começa mais um dia e mais uma etapa possível. Hoje
é um dia diferente de todos. Você, tendo 16 ou 76, será
mais velho amanhã e terá um dia a menos de vida. Hoje
é o dia. Jovens, velhos e adjacentes: é preciso ter
esperança.