Há luz no fim do túnel dos jornais impressos?
Castigados pela conjunção de duas crises – uma primeira de ordem conjuntural, ditada pelo cenário político e econômico, e uma segunda, estrutural, causada pela revolução
digital – os próprios diários brasileiros se perguntam sobre
o desfecho do imbróglio que tem reduzido suas receitas e,
consequentemente, encolhido as publicações, provocando
demissões em massa e despertando dúvidas crescentes sobre sua capacidade de entregar notícias, análises e opiniões
relevantes.
Durante o X Congresso da Abraji (Associação Brasileira
de Jornalismo Investigativo), a sobrevivência dos jornais norteou um debate que reuniu o trio formado por Ascânio Seleme, diretor de redação de O Globo, Ricardo Gandour, diretor
de conteúdo do grupo Estado, e Vinícius Mota, secretário de
redação da Folha de S.Paulo.
Coube a Mota fornecer indicadores econômicos sombrios com impacto direto sobre os principais anunciantes dos
jornais: o mercado imobiliário, o de automóveis e o de móveis
e eletrodomésticos.
Para além dos riscos econômicos, Gandour abordou o
que considera uma preocupante rejeição por parte do público, em escala global, ao incômodo gerado pela notícia, que
chamou de “aquilo que alguém não quer que seja publicado”.
Segundo ele, tal fenômeno, em que a sociedade almeja o
bem-estar rejeitando o contraditório, apresenta riscos para o
gênero jornalístico como um todo, e não apenas para os jornais impressos.
A fragmentação também foi indicada como um desafio
importante, tanto no lado da demanda – o leitor – quanto no
lado da oferta – o conjunto das mídias. À medida que o público mais jovem passa a ler notícias distribuídas em redes
sociais, a notícia também se fragmenta, gerando um risco
adicional, que o representante do Estadão chamou de “perda do discernimento do gênero jornalístico”. Nessa perda, o
público já não saberia distinguir um texto informativo de um
opinativo. A mitigação desse risco específico passaria pela sinalização clara pelos sites noticiosos do que seja uma notícia
ou um editorial.
Já a fragmentação da oferta repercute dramaticamente
no mercado publicitário, onde os jornais, que já disputavam
verbas com a TV, rádio e revistas, enfrentam os anunciantes digitais, como buscadores e redes sociais. Diante desse
panorama desafiador, Gandour acredita que o futuro dos
jornais depende da continuidade do método jornalístico,
que rege um ofício pautado pela independência editorial e a
investigação exaustiva. “A gente vê na internet coisas que
não contemplam o método jornalístico, como falar de uma
pessoa sem ouvi-la, reproduzir rumores sem checagem”,
disse. “O jornalismo é a disciplina da verificação.”
(Angela Pimenta. http://observatoriodaimprensa.com.br. Adaptado)
O termo destacado em negrito refere-se à expressão entre colchetes em: