Leia o texto para responder à questão.
Agora o filho começava a andar, brincava com barcos
que o velho Francisco fazia. Abandonados num canto, sem
um olhar do garoto sequer, um trem de ferro que Rodolfo
trouxera, o ursinho barato que Lívia comprara, o palhaço que
era presente dos tios de Lívia. O barco feito de um pedaço de
mastro que o velho dera valia por tudo. Na bacia onde Lívia
lavava roupa o filho navegava. O menino falava na sua língua
que lembrava o árabe: — Vovô, fá petá.
O velho Francisco sabia que ele queria que a tempestade desencadeasse sobre a bacia. Como Iemanjá que fazia
o vento cair sobre o mar, o velho Francisco inchava as bochechas e desencadeava o nordeste sobre a bacia. O pobre
barco rodava sobre si mesmo, andava ao léu do vento rapidamente, o garoto batia palmas com as mãozinhas sujas. O
velho Francisco inchava mais as bochechas, fazia o vento
mais forte. As águas da bacia, calmas como as de um lago,
se agitavam, ondas varriam o barco que terminava por se
encher de água e afundar lentamente. O garoto batia palmas,
o velho Francisco via sempre com tristeza o barco ir ao fundo.
Lívia olhava com medo o urso, o palhaço, o trem abandonados. Nunca o garoto fizera o trem descarrilar no passeio
da casa. Nunca fizera o urso matar o palhaço. Os destinos da
terra não interessavam ao filho. Seus olhos vivos seguiam o
pequeno barco na sua luta contra a tempestade que saía das
bochechas do velho Francisco.
(Jorge Amado. Mar morto. Companhia das Letras, 2008. Adaptado)