Texto: Tempo de lembrar, tempo de esquecer
No começo era só uma fratura resultante de uma queda
de bicicleta. Mas ao contrário do que os médicos esperavam, e ao
contrário do que suas boas condições de saúde faziam supor – aos
vinte e três anos era forte, robusto, não tinha doença alguma –, a
situação foi se complicando, e lá pelas tantas ele precisou baixar no
hospital para uma cirurgia. O que foi feito através do SUS; ajudante
de pedreiro, ele não tinha condições para se internar de outra
maneira.
O hospital ficava num bairro da periferia. Era pequeno,
mas razoavelmente aparelhado. Colocaram-no num quarto, junto
com outros cinco pacientes, todos idosos. O paciente da cama ao
lado da sua estava em coma – e, pelo jeito, há muito tempo. Ele ficou
olhando para o homem. Que, por alguma razão, o perturbava.
Quem identificou a causa de sua perturbação foi a atendente que
estava de plantão naquela noite. Você é parecidíssimo com este
velho, comentou ela. A expressão “este velho” não era depreciativa; como a própria atendente explicou, ninguém sabia quem era o
homem. Ele tinha sido abandonado na porta do hospital anos antes.
Não sabia dizer quem era, de onde viera; “Desconhecido número
31” era a identidade que figurava no prontuário. Por causa de suas
precárias condições, fora ficando, e agora estava em fase terminal.
A história impressionou profundamente o rapaz. Sobretudo por causa de uma lembrança que, desde criança, o intrigava.
Ele sabia que tinha um avô vivo (o outro avô, e as avós, haviam
falecido). Mas nunca vira esse homem, não sabia nem que jeito
tinha. Cada vez que perguntava aos pais, eles desconversavam.
Lá pelas tantas fora morar sozinho; os contatos com a família agora
eram esporádicos, e o misterioso paradeiro do avô já não era
assunto das conversas.
E se aquele homem fosse seu avô? Não era impossível.
Os pais, pobres, mal conseguiam sustentar os filhos; arcar com a
responsabilidade de cuidar do velho teria sido para eles carga
pesada.
Com auxílio das muletas, aproximou-se da cama do ancião. “Vovô”, murmurou baixinho, e deu-se conta de que pela primeira vez estava usando aquela palavra. Esperou uns minutos,
chamou de novo: “Vovô”. Teve a impressão de que o homem havia
se mexido, de que um tênue sorriso se esboçara em seu rosto. Ia
tentar mais uma vez, mas neste momento a atendente entrou, dizendo que estava na hora de dormir. Ele voltou para a cama. No dia
seguinte os pais viriam visitá-lo e o mistério se esclareceria. O que
fariam se tal acontecesse? Para isso, ele tinha uma resposta: se
ofereceria para cuidar do recém-achado avô. Coisa difícil, mas daria um jeito. E, pensando nisso, adormeceu.
Quando acordou eram sete da manhã. A cama do lado
estava vazia. O velho morreu, disse outro paciente, já levaram o
corpo. Pouco depois chegaram os pais. Traziam laranjas, traziam
até uma barrinha de chocolate. Expressaram a certeza de que,
naquele hospital, o filho iria melhorar.
O rapaz não disse nada. Não havia o que dizer. Como diz o
Eclesiastes, há um tempo para lembrar, e um tempo para esquecer.
Durante muito tempo ele lembrara o avô. Agora chegara o tempo de
esquecer.
Moacyr Scliar
Histórias que os jornais não contam - crônicas. Rio de Janeiro: Agir, 200
“Era pequeno, mas razoavelmente aparelhado” (2º. Parágrafo). A palavra “mas”, na frase, sugere o seguinte pressuposto: