Texto II: A língua
Quando imagino o terror dos africanos a bordo de navios
negreiros, nos palanques dos leilões, habitando a arquitetura insólita das fazendas de monocultura, considero que esse terror ia além
do medo da punição e residia também na angústia de ouvir uma
língua que não compreendiam. O próprio som do inglês devia
aterrorizá-los. Penso nos negros encontrando uns aos outros num
espaço distante das diversas culturas e línguas que os distinguiam
uns dos outros obrigados pelas circunstâncias a achar maneiras de
falar entre si num “mundo novo” onde a negritude ou a cor escura
da pele, e não a língua, se tornariam o espaço da formação de
laços. Como lembrar, como evocar esse terror? Como descrever o
que devem ter sentido os africanos cujos laços mais profundos haviam sido sempre forjados no espaço de uma língua comum, mas
foram transportados abruptamente para um mundo onde o próprio
som de sua língua materna não tinha sentido?
Imagino-os ouvindo o inglês falado como a língua do opressor, mas também os imagino percebendo que essa língua teria de
ser adquirida, tomada, reclamada como espaço de resistência. Imagino que foi feliz o momento em que perceberam que a língua do
opressor confiscada e falada pela língua dos colonizados, poderá
ser espaço de formação de laços. Nesse reconhecimento residia a
compreensão de que a intimidade poderia ser recuperada, de que
poderia ser formada uma cultura de resistência que possibilitaria o
resgate do trauma da escravização. Imagino, portanto, os africanos
ouvindo o inglês pela primeira vez como “a língua do opressor” e
depois ouvindo-o outra vez como foco potencial de resistência.
Aprender o inglês, aprender a falar a língua estrangeira, foi um
modo pelo qual os africanos escravizados começaram a recuperar
seu poder pessoal dentro de um contexto de dominação. De posse
de uma língua comum, os negros puderam encontrar de novo um
modo para construir a comunidade e um meio para criar a solidariedade política necessária para resistir.
bell hooks
Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Trad. de
Marcelo B. Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2013
“Penso nos negros encontrando uns aos outros num espaço
distante das diversas culturas e línguas que os distinguiam uns
dos outros...” (1º parágrafo). A expressão “uns dos outros” indica: