1. "Pentimento" é a palavra italiana para arrependimento, mas designa (em muitas línguas) uma pintura ou esboço encoberto
pela versão final de um quadro. Às vezes, com o tempo ou no processo de restauração, a tinta deixa transparecer a composição em
cima da qual o artista pintou uma nova versão. Esses esboços ou pinturas, que foram rejeitados e encobertos pelo artista, são os pentimentos, que foram descartados sem ser propriamente apagados.
2. O pentimento faz parte do quadro, assim como fazem parte da nossa vida muitos projetos dos quais desistimos. São restos do
passado que transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que, mesmo assim, integram a nossa
história.
3. Nossas vidas são abarrotadas de caminhos que deixamos de pegar; são todos pentimentos, mais ou menos encobertos: projetos que não se realizaram. Por que não se realizaram? Em geral, pensamos que nos faltou a coragem. Não soubemos renunciar às
coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance.
4. O problema dos pentimentos é que eles esvaziam a vida que temos. O passado que não se realizou funciona como a miragem
da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha "certa". Quando examino as fotos de minhas turmas do colégio,
sempre fico com a impressão de que deixei amizades e amores inacabados, mas que teriam revolucionado meu futuro.
5. Nem sempre os pentimentos são bons conselheiros - até porque, às vezes, eles são falsos. Hoje, é fácil esbarrar em espectros
do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais. Graças às redes, um
relacionamento apagado da memória pode reaparecer como se representasse um grande potencial ao qual renunciamos. Somos
perigosamente nostálgicos de escolhas passadas alternativas que teriam nos levado a um presente diferente – e melhor. Se essas
escolhas não existiram, somos capazes de inventá-las e de vivê-las como pentimentos. Os pentimentos não são necessariamente
recíprocos, e os falsos pentimentos, revisitados, são receitas para o desastre.
(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Disponível em: www1.folha.uol.com.br)