Víamos os nossos pés
Não sou uma pessoa tropical. Minha terra preferida é o
outono em qualquer lugar. No outono as coisas se abrandam
e absorvem a luz em vez de refleti-la. É como se a Natureza
etc., etc. (O verão não é uma boa estação para literatura descritiva. Me peça o resto da frase no outono.)
Sempre digo que a praia seria um lugar ótimo se não
fossem a areia, o sol e a água fria. É só uma frase. Gosto do
mar. O diabo é que a gente sempre tem na cabeça um banho
de mar perfeito que nunca se repete. O meu aconteceu em
Torres, Rio Grande do Sul, em algum ano da década de 50.
Sim, crianças, em 50 já existiam Torres, o oceano Atlântico e
este cronista, todos bem mais jovens. O mar de Torres estava
verde como nunca mais esteve. Via-se o fundo?
Via-se o fundo.
Víamos os nossos pés, embora a água estivesse pelo
nosso pescoço, e como eram jovens os nossos pés. Havia
algas no mar? Iodo, mães-d’água, siris, dejetos, náufragos,
sereias? Não, a água estava límpida como nunca mais esteve. Os únicos objetos estranhos no mar eram os nossos
pés, e como isso faz tempo. Até que horas ficamos na água?
Alguns anoiteceram dentro d’água e estariam lá até agora
se não tivessem que voltar para a cidade, se formar, fazer
carreira, casar, envelhecer, essas coisas.
Como o cronista explica sua aversão ao verão depois de
tais lembranças? É que eu não gostava do verão. Gostava de
ser mais moço.
(Luis Fernado Verissimo. Em algum lugar do paraíso.
Rio de Janeiro, Objetiva, 2011. Adaptado)
A expressão destacada está empregada em conformidade com a regência da norma-padrão da língua na seguinte frase: