Considere o texto para responder à questão .
Na apresentação intitulada “A exaustão da razão”, a filósofa e psicanalista Viviane Mosé descreveu o quadro atual da
sociedade: em crise. “Estamos vivendo mais do que uma crise normal porque, a meu ver, tudo está em crise”, sintetizou.
Segundo ela, a atual crise civilizatória tem a ver com uma
mudança na forma de percepção da realidade: o tradicional
“pensamento em linha”, de acordo com Viviane, está sendo
substituído velozmente pelo “pensamento em simultaneidade”, que troca a materialidade da vida, ou sua objetividade,
pela narrativa midiática, nas redes. É como se o ato de viver estivesse sendo substituído pela exposição desse ato.
“É mais ou menos o papel que o carro ou a casa tinham na
vida das pessoas: hoje é essencial ter espaços de narrativa,
registrar materialmente as vivências”, disse.
Nesse sentido, alertou para três aspectos decorrentes
dessa transformação: estamos nos transformando apenas
em metáforas do que somos efetivamente; acabamos ampliando nosso espaço de significação perante o coletivo; e
criamos, com isso, uma exigência de desempenho que está
nos incapacitando paulatinamente. Não é à toa, destacou
a filósofa, que os índices de depressão batem recordes na
contemporaneidade, assim como os suicídios em populações
jovens, especialmente. “Estamos matando nossa intangibilidade. Se não posso comigo, posto”, destacou.
Por trás dessa pressão, lembrou a filósofa, estão as constantes promessas por felicidade. Mas a palavra felicidade só
promete, não cumpre. “Essas promessas de felicidade acabaram nos retirando dos nossos corpos, pois passamos a odiar
o sofrimento – tanto físico quanto psíquico – quando ele é um
dos fundamentos da existência”, afirmou.
Da mesma forma que passamos a odiar o sofrimento
físico e psíquico, e a nos medicar cada vez mais contra isso,
passamos a odiar também a solidão, completou Viviane. Mas
solidão é, ou deveria ser, diferente de abandono. “Solidão é
condição de vida. Quando estou sozinha estou comigo, estou
exercendo a minha humanidade de conversar comigo mesma. Estamos nos embotando rapidamente, como um retrato
da nossa impotência em existir”, constatou.
(CRPRS – Conselho Regional de Psicologia-RS. www.crprs.org.br.
Adaptado)
Duas passagens do texto que correspondem a raciocínios análogos estão em: