Texto: Eu e a
enxaqueca,
uma história de amor
1º Eu
sou meio figurinha carimbada no
circuito de triagem clínica
de enxaqueca. Os pesquisadores me adoram,
principalmente pelo
número prodigioso de crises que tenho: de
dez a 12 por mês, em
média. “Que coisa fantástica. Uma fonte
excelente de dados”, comemorou
o coordenador da minha última análise de
fármaco quando
lhe mostrei o diário exclusivo para as dores
de cabeça que mantenho
há anos.
2º “Excelente para
você”, retruquei. Para
mim, representa quase
um terço da vida sendo refém do horror da
enxaqueca, incluindo
os três dias por mês, pelo menos, que passo
de cama, consumida
pela dor paralisante e a náusea
intensa.
3º Experimentei
mais de uma dúzia de
remédios preventivos e
participei de uma série de triagens para
medicamentos em teste.
Nenhum ajudou; alguns, inclusive provocaram
dores horríveis. O
fato é que todos foram criados para tratar
outros males, e só depois
investidos na enxaqueca, depois que
pacientes hipertensos,
convulsivos e bipolares relataram uma
melhora coincidente nas
dores de cabeça de que sofriam.
4º
Atualmente, participo de uma
triagem para
um remédio específico.
Seu alvo é o peptídeo relacionado ao gene da
calcitonina,
substância neuroquímica que faz os vasos
sanguíneos incharem – e
que é o que as pessoas que sofrem desse mal
aparentemente
produzem em demasia.
5º Pela
primeira vez na vida, pareço estar
sentindo um certo
alívio. E o pior efeito colateral até agora
é um otimismo profundo,
embora ele venha acompanhado de complicações
inesperadas.
Depois de anos experimentando todo tipo de
medicamento, já não
me preocupo mais com a ineficácia porque é o
que sempre acontece.
Percebi desta vez uma nova preocupação: e se
desta vez
funcionar?
6º Tive
a primeira crise de enxaqueca aos 12
anos – e depois
veio outra, e outra. A princípio, não sabia
o que era. Meus pais
achavam que eu era só hipersensível à gripe,
problema que eles
esperavam e eu dava como certo que ia
superar. Adolescente motivada
e dedicadíssima, acreditava que todas as
portas estavam
abertas para mim, em termos de carreira:
astronauta, médica, a
primeira presidente mulher.
7º
Foi
só
no primeiro ano em Yale que tive
minha enxaqueca
diagnosticada, quando também me toquei de
que não ia superá-la.
As portas começaram a se fechar. O fato de
ter que passar dias
seguidos sem poder me levantar parecia
eliminar a possibilidade de
carreira em uma profissão da qual dependiam
vidas – ou seja, a
medicina cirúrgica estava fora de questão.
Também desconfiei que
as enxaquecas crônicas atrapalhariam uma
candidata à presidência
muito antes de as dores de cabeça de Michele
Bachmann se
tornarem manchete. Optei então pelo
jornalismo.
8º Já
faz mais de 20 anos que a enxaqueca
ocupa um espaço
central, ainda que indesejável, na minha
vida, meio como a irmã
detestável que eu nunca tive. Ela também
ajudou a moldar a pessoa
em que me tornei. E não só me ajudou a
desenvolver uma tolerância
bem alta à dor, como a aperfeiçoar a técnica
do vômito em jato. E,
agora que me deparo com a perspectiva quase
inimaginável de me
livrar da dor para sempre, começo a perceber
que nem consigo
imaginar a vida sem ela.
9º
A
possibilidade do surgimento de um
remédio “prodígio” gera
emoções conflitantes por várias razões. Para
começar que, se tivesse
sido inventado antes, eu poderia ter me
tornado astronauta.
E se a solução é realmente tão simples –
olha, seu organismo gera
esse tal de peptídeo em demasia, está aqui o
remédio para inibir a
produção –, fica difícil entender por que
demorou tanto para ser
inventado.
10º A
cura também representaria um novo
fardo. Dizer que fiz o
melhor que pude “apesar da enxaqueca” livra
a minha cara por
tudo aquilo que não fiz, tipo tornar-me a
primeira mulher na presidência.
Se esse medicamento funcionar, nada vai me
impedir de
fazer coisas excepcionais – e, ao mesmo
tempo, acabará com a
desculpa para não as realizar.
11º Por
outro lado, e se foi a enxaqueca que
me ajudou a conquistar
tudo o que consegui até agora? Scott
Sonenshein, professor
da Faculdade de Administração Jones da
Universidade Rice, afirma
que conseguimos realizar mais quando nossos
recursos (no meu
caso, a saúde) são limitados do que quando
são abundantes. “As
restrições podem ser motivação para
desenvoltura, para a
criatividade, estímulo para uma solução
melhor dos problemas”,
escreve ele em seu livro, Stretch.
12º
É
fato que, graças à enxaqueca, aprendi
muita coisa interessante
e útil – como fazer todos os meus trabalhos
antes do prazo,
para o caso de a dor de cabeça atacar na
última hora. Fazer as
coisas apesar dela quando absolutamente
necessário – e a pegar
leve comigo mesma no resto do tempo. Aprendi
a pedir ajuda quando
precisava. Será que a ausência da enxaqueca
me fará menos
responsável, menos diligente? Ou fará com
que eu me dedique em
dobro, sabendo que não vou acabar tendo uma
dor paralisante se
me esforçar demais? Tenho muitas perguntas
em relação a essa
possível versão futura de mim mesma. (E uma
para a Nasa: qual é
o limite de idade para o treinamento dos
astronautas?)
13º É
claro que, se uma crise de identidade
é o preço para acabar
com a dor debilitante no meu cérebro,
pagarei com muito prazer.
Passei décadas sonhando com uma cura,
geralmente deitada no
quarto escuro, com um saco de ervilhas
congeladas contra o rosto.
A surpresa é eu sentir qualquer resquício de
nostalgia em relação a
esses tempos – mas percebo agora que uma
parte de mim sentirá
saudades.
LATSON,
Jennifer
Texto
adaptado. Disponível em:
https://oglobo.globo.com/saber-viver/eu-
a-enxaqueca-uma-historia-deamor-23178050
Acessado em 16/03/2019.