Os Três Porquinhos e o Lobo, “Nossos Velhos Conhecidos”
Era uma vez Três Porquinhos e um Lobo Bruto. Os Três
Porquinhos eram pessoas de muito boa família, e ambos tinham herdado dos pais, donos de uma churrascaria, um talento deste tamanho. Pedro, o mais velho, pintava que era
uma maravilha – um verdadeiro Beethoven. Joaquim, o do
meio, era um espanto das contas de somar e multiplicar, até
indo à feira fazer compras sozinho. E Ananás, o menor, esse
botava os outros dois no bolso – e isso não é maneira de dizer. Ananás era um mágico admirável. Mas o negócio é que
– não é assim mesmo, sempre? – Pedro não queria pintar,
gostava era de cozinhar, e todo dia estragava pelo menos um
quilo de macarrão e duas dúzias de ovos tentando fazer uma
bacalhoada. Joaquim vivia perseguindo meretrizes e travestis, porque achava matemática chato, era doido por imoralidade aplicada. E Ananás detestava as mágicas que fazia tão
bem – queria era descobrir a epistemologia da realidade cotidiana. Daí que um Lobo Bruto, que ia passando um dia, comeu os três e nem percebeu o talento que degustava, nem as
incoerências que transitam pela alma cultivada. MORAL: É
INÚTIL ATIRAR PÉROLAS AOS LOBOS.
Fernandes, Millôr. 100 Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Record, 2003.
A moral da história, explicitada ao final do texto, atribui ao
adjetivo “bruto” que acompanha a palavra “lobo” o sentido
de algo ou alguém que