“Língua solta”
Você fala direito? Aposto que sim. Mas aposto também
que, no calor de uma conversa animada, você já se flagrou engolindo o r de um verbo no modo infinitivo. A letra s, quando indica
plural, costuma ser devorada nas rodas mais finas de bate-papo
especialmente em São Paulo. Já os mineiros (até os doutores!) traçam sem piedade o d que compõe o gerúndio. No país todo,
come-se às toneladas o primeiro a da preposição para. A primeira
sílaba de todas as formas do verbo estar, então, essa já é uma
iguaria difícil de achar. Portanto, poucos se espantam ao ouvir
uma frase assim:
“Num vô consegui durmi purquê os cara tão tocano muito
alto.”
Isso é errado?
Depende. Se os seus olhos quase saltaram da órbita ao
fitar a frase acima, leia em voz alta para perceber que ela não soa
tão absurda. Expressões como tocano e vô consegui atentam contra a norma-padrão da língua portuguesa – ensinada na escola
para preservar um código comum a todos os falantes do idioma.
Do ponto de vista da linguística, entretanto, elas são só objetos de
estudo. Retratam fielmente aquilo que o português brasileiro é
hoje. E fornecem pistas sobre o que a língua padronizada pode vir
a ser daqui a 10, 100 ou 1 000 anos.
Um biólogo nunca diria que uma bactéria está errada, afirma o linguista Ronald Beline, da USP. A linguística – ciência que
estuda a linguagem assim como a biologia se ocupa dos seres vivos – tampouco pode dizer se uma palavra está certa ou errada.
De certo modo, a linguagem também é um organismo vivo. Elementos linguísticos, como células, nascem e morrem o tempo
todo, modificando o sistema. Em todos os idiomas, palavras se
alongam, encurtam e trocam de significado; expressões são criadas enquanto outras perdem a razão de existir; substantivos, verbos, adjetivos e advérbios emprestam sentido uns aos outros.
Embora a linguística esteja longe de ser uma ciência exata,
ela já foi capaz de identificar regras mais ou menos fixas no comportamento errático da linguagem verbal. Os mecanismos que regem essas metamorfoses são analisados no livro The Unfolding of
Language (O Desdobramento da Linguagem, sem tradução para o
português), uma das poucas obras digeríveis para quem não é familiarizado com o tema nem com o jargão de quem o estuda. Segundo seu autor, o israelense Guy Deutscher, a linguagem é um
recife de metáforas mortas.
Disponível em: <https://super.abril.com.br/ciencia/lingua-portuguesa-a-lingua-solta/>.
Acesso em: 18 dez. 2018. (Adaptado).