A paranoia está batendo
(artigo de Arnaldo Jabor; By admin | Abril, 2013)
Um dia, há muitos anos, percebi que haviam
modificado a caixa grande dos Chicletes Adams
(uma cor-de-rosa e outra amarela). Quem se
lembra dessas saudosas embalagens? Eram caixas
maiores, que tinham uma janelinha de celofane,
através da qual se viam os chicletinhos
chacoalhando. Assustado, notei que a janela
original fora trocada por uma mentirosa abertura,
desenhada com os chicletinhos impressos. Algum
executivo zeloso, para fazer bonito junto aos
patrões, acabara com a visão real das balinhas
frescas como a brisa, deixando-nos somente um
simulacro. Isso me preocupou. Entendi que se
iniciava uma época comercial menos humana
(talvez a pós-modernidade), mas, por outro lado,
compreendi que detalhes ínfimos podem ser
indícios de momentos históricos. Por isso, como
vivemos a época de encrencas insolúveis, sem um
futuro claro, me ligo em bobagens iluminadoras
do presente.
Por exemplo, que significa a resposta de uma
telefonista, se eu lhe agradeço por uma
informação e ela replica: “Imagina!…”. Que quer
dizer isso? Talvez denote que eu e ela fazemos
parte de um “sistema” coletivo de obrigações
automáticas, sem espaço para gentilezas
individuais e gratidão desnecessária. É quase uma
repreensão, como se meu ‘muito obrigado’
quebrasse a lógica contínua de seu serviço. Daí a
resposta: “Imagina! O senhor se acha especial?”.
Aliás, “senhor” é uma novidade. Dizia-se sempre
“Sr. Fulano, Sr. Sicrano…”.
Tudo bem, mas agora usam um “senhor” no
fim da frase: “Estaremos entregando a
encomenda, senhor”… Ou “senhorita”. Alguém já ouviu “senhorita” no dia a dia? Isso deve ser
influência do gerúndio na dublagem de filmes
americanos: “Miss Williams, we’ll be sending
your package soon”. Seria a nefasta influência do
imperialismo cultural (esquerda) ou o
crescimento de uma linguagem global (liberais).
As telefonistas também dizem: “Quem deseja?”
ou “O senhor Fulano não se encontra…”. Isso me
desorganiza. Tenho ganas de dizer: “Todos
desejam, o ser humano deseja! E o senhor Fulano
não ‘se encontra’, como? Ele está em crise,
perdidaço na vida?”. Nada digo, porque ela
responderia: “Eu não saberia lhe informar,
senhor…”.
Outro fenômeno moderno, ou melhor,
“contemporâneo” (aliás, não aguento mais esta
palavra ‘contemporâneo’, que tudo absolve e tudo
explica: “Isso é uma merda, mas é
supercontemporâneo!…”), é o tom dos falantes
no celular. Em aeroportos, é comum mulheres
discutindo a relação com o marido, falando alto,
andando pela sala, até chorando, na linguagem
‘metapsicológica’ dos Big Brothers. Criou-se
uma língua BBB, feita de súbitas lágrimas,
acusações e queixumes, rancor dosado por
perdões simultâneos, deixando escapar
propositais intimidades, pontuadas por rápidas
olhadas para conferir a reação dos circunstantes.
Aliás, por falar em celular, e as musiquinhas?
Jingle Bells ou Pour Elise tocam no bolso de um
executivo, que imediatamente faz um resumo da
situação da empresa aos berros. Por que não
fazem um celular que aperte o saco do usuário?
Ele daria um grito e gemeria discretamente:
“Alô?”.
E os dedinhos “contemporâneos” que não
param nos blackberries e iPhones, com as
cabeças baixas, digitando mensagens misteriosas?
Isso me traz uma dolorosa solidão, pois ninguém
mais presta atenção em ninguém ‘ao vivo’, como
se o importante é o que não está ali, o desejo ‘não
se encontra’ aqui, mas acolá, talvez na ‘nuvem’.
E as notícias? São eivadas de incertezas – se a
Grécia quebra ou não quebra – ou de certezas
impossíveis como, por exemplo: a taxa de inflação vai ser de 6,3 ou 6,7 ao fim do ano, cai
em outubro e sobe em novembro. Como podem
saber? Como se mede isso? Por que não tomam
medidas essenciais como cortar gastos públicos
em vez dessa irritante roleta brasileira de
palpites? Claro que os ‘pentelhos’ e seus aliados
feudais não deixam.
Por que as paradas gay têm três milhões e os
evangélicos quatro milhões e a marcha contra a
corrupção no Rio só 2.500 pessoas? É a medida
clara de nossa alienação política. E as queimadas
e desmatamentos? O governo fala disso como se
referisse a outro país, com um lamento
impotente: “O equivalente a mil campos de
futebol foram queimados em um mês…”. Por que
a medida ‘campos de futebol’? Para deprimir
corintianos? Aliás, entristece-me ver os times de
futebol com anúncios no peito dos jogadores. Sou
um babaca romântico, claro. Mas os times
heroicos vendendo Hyundai e Kalunga me doem.
E os garçons simpáticos? Sempre que eu peço
um guaraná, ouço invariavelmente: “Com gelo e
laranja?”. Por quê? O meu guaraná indígena não
basta? Sempre tenho a esperança de encontrar um
“old timer” que me pisque o olho e faça a bela
pergunta antiga: “Da Brahma ou da Antártica?”.
E a demarcação das terras indígenas, e as paisagens condenadas? É politicamente incorreto ser contra 11 mil índios que dispõem de dez mil metros quadrados cada um na ‘Raposa do Sol’, índios de bermuda e relógio. Por quê? Não podemos mais admirar uma paisagem sem que
um chato não diga: “Olha bem, que está
acabando…”.
Repugnam-me células fotoelétricas em bicas
de banheiros chiques. Você mete a mão
ensaboada debaixo de uma bica dourada e a água
não sai. Você tenta de novo, nada; até que o
faxineiro te instrui a posição certa, esperando
gorjeta, mas a água jorra e para, antes de lavar o
sabão cor-de-rosa ou cor de diarreia. E o aparelho
de secar mão que uiva como uma boca de
hipopótamo? E os cremes de rosto e dentes, com
a bisnaga vazia pela metade, para faturar uns reais dos otários? E as giletes turbinadas cujas
caixas só têm duas unidades? E o papel higiênico
‘folha fina’, que se esgarça entre as unhas?
Abomino e-mails em cascata, com as piadinhas
da hora, tenho asco de pequenas besteirinhas
como gente dizendo-me “bom descanso” ou
“bom trabalho”, pagode careta, casais que se
casam e se separam na Caras, e, pasmem, não
aguento mais ‘bunda’. Isso, no bom sentido,
claro, mas não aguento mais ver ‘melancias,
melões e moranguinhos’ em toda parte, outdoors,
revistas… A economia de consumo é embalada
pelas bundas. Viram? A paranoia está batendo…
Santo Deus, que será de mim?