Não sei a sua, mas a minha memória, quando precisa
trabalhar em minha própria causa, é preguiçosa, lenta, finge
que não é com ela. Minha força de vontade, então, coitada,
é uma comédia de mau gosto, boa em me deixar envergonhada, dá uma novela o que eu já passei com ela. Por outro
lado, nunca me esqueci dos horários dos remédios dos meus
filhos. Nunca atrasei para cumprir um prazo da minha agenda
profissional, e, menos ainda, deixei sem fazer qualquer uma
das tarefas no trabalho ou em casa. Para as responsabilidades do ganha-pão e dos compromissos com a família, não
me permito errar. Sou pontual. Com todos menos comigo. É
assim, comigo eu falho mesmo.
São exemplos bobos, mas refletem a fragilidade de nossos
impulsos, sentimentos, decisões. Mas, principalmente, mostram a falta de amor, carinho e afeto com nós próprios. E a vida
vai passando e você vai se esquecendo disso, abandonando,
pouco a pouco, a si mesma. Tudo e todos são importantes e
merecem o seu tempo, a sua disposição, o seu sorriso. Tem
dias, sinceramente, que não dou nem um sorriso para mim. À
noite, desmonto morta na cama. Meus pés pedem um carinho,
um toque, massagem. Estou cansada demais para atendê-los.
Bem na hora que seria deles, os heróis que me carregaram
o dia todo, eu não tenho mais forças. Vou dormir sem esse
deleite, não me mexo em busca de algo tão simples. Tão fácil.
Mas é preciso lembrar que temos direito a esses rituais de
agrado, aconchego, bem-estar e acolhida. Não é uma crônica
para narcisos. É uma crônica para quem não se ama da forma
como deveria se amar, se respeitar, se bem querer. Para quem
se esqueceu...
Portanto, hoje, ainda, sente-se no sofá e esfregue seus
pezinhos com um creme bem cheiroso. E não ligue para o
que vão dizer. Apenas se ame.
(Elma E. Bassan Mendes. Eu me amo? Diário da Região,
23.02.2019. Adaptado)
A alternativa cujo enunciado reescreve corretamente uma
passagem do texto, sem prejuízo do sentido original, é: