Assombro na porta da Colombo
Youtubers, influencers e humoristas, com milhões de
adeptos nas redes sociais, sequer imaginam a popularidade
de que desfrutou Olavo Bilac. Em plena Belle Époque carioca, uma multidinha se formava em frente à confeitaria Colombo só para ver o Príncipe dos Poetas que, no auge dos
30 anos, era uma espécie de monumento da nação, cujos
poemas eram devorados e decorados pelos leitores.
Como todo príncipe e todo monumento, caprichava na
pose. Seu nome completo era um alexandrino¹: Olavo Braz
Martins dos Guimarães Bilac. De elegante perfil parnasiano,
postava-se de óculos para disfarçar o estrabismo. Também
era prognata² e torcedor do Botafogo, mas moçoilas, madames e marmanjos não ligavam. Afinal, ele era capaz de ouvir
e entender as estrelas.
Com o tempo e o estigma (atribuído pelos modernistas)
de poeta jocoso, tornou-se sinônimo de formalismo e alienação. Uma injustiça que se reflete hoje: até agora nada se fez
para lembrar o centenário de sua morte, que se completa em
fevereiro de 2018.
Acusaram-no de indiferença ao cotidiano dos brasileiros.
Besteira. Substituindo Machado de Assis, foi cronista semanal da “Gazeta de Notícias”, entre 1897 e 1908. Escreveu
sobre Canudos e detalhou o processo de modernização do
Rio. Não se pode entender aquele período sem ler Bilac, que
como jornalista envelheceu melhor do que como poeta.
Numa crônica de 1901, em que tratou do uso das imagens na imprensa, antecipou a televisão e, incrível, as redes
sociais: “Qual de vós, irmãos, não escreve todos os dias quatro ou cinco tolices que desejaria ver apagadas ou extintas?
Mas, ai! De todos nós! Não há morte para as nossas tolices!”.
De pince-nez³, Bilac iria arrasar como youtuber.
(Alvaro Costa e Silva. Folha de S.Paulo, 15.02.2018. Adaptado)
1. alexandrino: verso com dozes ílabas poéticas.
2. prognata: indivíduo cujos dentes incisivos da arcada inferior se fecham
à frente dos incisivos da arcada superior.
3. pince-nez: um modelo de óculos cuja estrutura era desprovida de hastes e sua fixação era feita apenas sobre o nariz.
De acordo com o último parágrafo, é correto concluir que
“Bilac iria arrasar como youtuber”, pois