Preparar as crianças contra as fake news
A propagação de notícias falsas já mostrou seu poder de
influenciar eleições e dividir sociedades, potencializando preconceitos e ódios. Que efeito terá em crianças e jovens que
não receberam uma formação para a leitura de notícias?
Sem entender o que se passa ao redor, as crianças não
se sentem parte da sociedade. Elas ouvem, principalmente
pela televisão, e leem na internet o que está circulando
no momento. Percebem quando algo de grave ocorre, até
porque podem viver em casa o problema estampado nas
manchetes dos jornais, como o desemprego dos pais.
Já ouviram falar de fake news, mas não sabem em quem
confiar nem como identificar a credibilidade de uma informação, além de que diferenciar informação de opinião é difícil
para elas.
Como muitos adultos também se mostram incapazes de
detectar uma notícia falsa, as crianças acabam muitas vezes
sem orientação, ficam à margem do debate.
Encontra-se aí um grave problema: se elas não tiverem
formação para ler notícias e não exercitarem o senso crítico
para se protegerem de informações mentirosas, iremos perder uma geração inteira que poderia (e deveria) promover as
mudanças que tanto queremos.
As crianças são curiosas por natureza e querem se informar. Além disso, têm o direito de acesso às mídias e de
participação no debate público assegurado pela Convenção
Internacional sobre os Direitos da Criança.
A experiência mostra que, tendo acesso a notícias adequadas aos seus repertórios e contextualizadas, sentem-se
parte da sociedade e tornam-se mais autônomas.
Em várias ocasiões, impressionei-me com o protagonismo dos leitores mirins. Crianças de uma região carente do
interior de São Paulo, que leram os textos sobre a crise dos
refugiados sírios, organizaram um brechó com suas próprias
roupas e entregaram o dinheiro a algumas famílias de refugiados que estão no Brasil.
Outras, tendo lido sobre o problema da obesidade infantil no Brasil, mobilizaram-se para organizar uma olimpíada.
Algumas explicaram a seus pais o que significa impeachment.
O problema das fake news é mais grave do que se imagina. Caso não seja combatido desde a base, teremos crianças
e jovens deixando de ler ou descrentes até de veículos com
credibilidade.
Isso os deixará paralisados, sem saber como agir e
vulneráveis a toda espécie de manipulação.
Jovens e crianças bem informados entendem o que se
passa ao redor, formam as próprias opiniões e se tornam
cidadãos críticos e ativos.
Não há maneira de controlar o que nossos filhos leem
ou veem, mas podemos incluí-los no debate, compartilhar
e discutir notícias com eles, ensinando-os a buscar fontes
confiáveis e a exercitar o senso crítico.
Se perdermos essa geração para as fake news, que líderes teremos e o que eles farão pelo Brasil daqui a 20 anos?
(Stéphanie Habrich, diretora executiva do jornal “Joca”, voltado para
jovens e crianças. Folha de S.Paulo, 19.02.2018. Adaptado)