Iracema
José de Alencar
Capítulo 2
Além, muito além daquela serra, que ainda azula no
horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos
lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que
a asa da graúna e mais longos que seu talhe de
palmeira.
[...]
Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem
corria o sertão e nas matas do Ipu, onde campeava
sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé
grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde
pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.
Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro
da floresta. Banhava-lhe o corpo, a sombra da
oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. [...]
[...]
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta.
Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra;
sua vista perturba-se.
Diante dela e todo a contemplá-la, está um
guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau
espírito da floresta. Tem nas faces o branco das
areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das
águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos
cobrem-lhe o corpo.
Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A
flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue
borbulham na face do desconhecido.
De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz
da espada; mas logo sorriu. [...]
O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não
o sei. Porém a virgem lançou de si o arco e a
uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da
mágoa que causara.
A mão que rápida ferira, estancou mais rápido e
compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema
quebrou a flecha homicida: deu a haste ao
desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.
O guerreiro falou:
- Quebras comigo a flecha da paz?
- Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem
dos meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que
nunca viram outro guerreiro como tu?
- Venho de bem longe, filha das florestas. Venho
das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm
os meus.
- Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos
tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de
Araquém, pai de Iracema.
[...]
ALENCAR, José de. Iracema. São Paulo: Ciranda
Cultural, [s.d]. p. 5-7.
No trecho: “O sentimento que ele pôs nos olhos e
no rosto, não o sei. Porém a virgem lançou de si o
arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro...” O
elemento coesivo em destaque pode ser substituído,
sem perda de significado, por: