Canto III – Esquece
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro
Marcelo Yuka
Violência é carrão parar em cima do pé da
gente e fechar a janela de vidro fumê e a gente nem
ter a chance de ver a cara do palhaço de gravata para
não perder a hora ele olha o tempo perdido no rolex
dourado.
Violência é a gente naquele sol e o cara
dentro do ar condicionado uma duas três horas quatro
esperando uma melhor oportunidade de a gente
enfiar o revólver na cara do cara plac.
Violência é ele ficar assustado porque a gente
é negro ou porque a gente chega assim nervoso a
ponto de bala cuspindo gritando que ele passe a
carteira o relógio enquanto as bocas buzinam
desesperadas.
Violência são essas buzinadas e essa fumaça
e o trânsito parado e o outro carro que não entende que se dependesse da gente o roubo não demoraria
essa eternidade atrapalhando o movimento da
cidade.
Violência é você pensar que tudo deu certo e
nada deu certo porque quando você vê tem um
policial ali perto querendo salvar o patrimônio do
bacana apontando para a nossa cabeça um 38 e o
outro 38 à paisana.
Violência é acabarem com a nossa esperança
de chegar lá no barraco e beijar as crianças e ligar a
televisão e ver aquela mesma discussão ladrão que
rouba ladrão a aprovação do mínimo ficou para a
próxima semana.
Violência é a gente ficar com a mão levantada
cabeça baixa em frente à multidão e depois entrar no
camburão roxo de humilhação e pancada e chegar na
delegacia e o cara puxar a nossa ficha corrida e dizer
que vai acabar outra vez com a nossa vida.
Violência é a gente receber tapa na cara e na
bunda quando socam a gente naquela cela imunda
cheia de gente e mais gente e mais gente e mais
gente pensando como seria bom ter um carrão do
ano e aquele relógio rolex mas isso fica para depois
uma outra hora.
Esquece.
(FREIRE, Marcelino. In Contos negreiros. Rio de Janeiro: Record,
2015, p.31 -33.)