A ilusão das redes sociais
É indiscutível o importante papel que as redes sociais
desempenham hoje nos rumos de nossa vida política
e privada. São indiscutíveis também os avanços
que introduziram nas comunicações, favorecendo o
reencontro e a aproximação entre as pessoas e, se
forem redes profissionais, facilitando a visibilidade
e a circulação de pessoas e produtos no mercado de
trabalho.
A velocidade com que elas veiculam notícias, a extensão
territorial alcançada e a imensa quantidade de pessoas
que atingem simultaneamente não eram presumíveis
cerca de uma década atrás, nem mesmo pelos seus
criadores. Temos sido testemunhas, e também alvo, do
seu poder de convocação e mobilização, assim como
da sua eficiência em estabelecer interesses comuns
rapidamente, a ponto de atuarem como disparadoras
das várias manifestações e movimentos populares em
todo o mundo atual.
Portanto, não podemos sequer supor que elas tragam
somente meras mudanças de costumes, porque seu
peso, associado ao desenvolvimento da informática,
é semelhante à introdução da imprensa, da máquina
a vapor ou da industrialização na dinâmica do nosso
mundo. As redes sociais provocam mudanças de
fundo no modo como as nossas relações ocorrem,
intervindo significativamente no nosso comportamento
social e político. Isso merece a nossa atenção, pois
acredito que uma característica das redes sociais
é, por mais contraditório que pareça, a implantação
do isolamento como padrão para as relações humanas.
Ao participar das redes sociais acreditamos ter muitos
amigos à nossa volta, sermos populares, estarmos
ligados a todos os acontecimentos e participando
efetivamente de tudo. Isso é uma verdade, mas também
uma ilusão, porque essas conexões são superficiais e
instáveis. Os contatos se formam e se desfazem com
imensa rapidez; os vínculos estabelecidos são voláteis e
atrelados a interesses momentâneos.
Além disso, as relações cultivadas nas redes sociais se
baseiam na virtualidade, portanto, no distanciamento
físico entre as pessoas. Isso nos permite, com facilidade,
entrar em contato com as pessoas e afastá-las quando
bem quisermos. Tal virtualidade garante comunicação
sem intimidade.
[...]
Quando Hannah Arendt, pensadora contemporânea da
política, analisou os totalitarismos do século passado,
apontou para o projeto desses sistemas de tornarem os
homens supérfluos. Para tanto, entre outros expedientes,
mantinham as pessoas isoladas umas das outras.
Separavam-nas de seus familiares, de suas
comunidades, inclusive das pessoas com quem
coabitavam nos galpões dos campos de concentração,
instaurando entre elas a suspeita e o medo de delações.
Isolavam classes sociais promovendo contendas e
animosidades entre elas. Isolavam as pessoas do seu
próprio eu, exaurindo-as com trabalho e mantendo-as
doentes e famintas. O isolamento torna os indivíduos
manipuláveis e controláveis, como coisas. Os sistemas
totalitários sabem muito bem que, isolados, os homens
perdem a capacidade de se expor e de agir.
Na nossa atualidade o isolamento tem um perfil
diferente, porque é mais voltado para a intensificação do
individualismo, cujos interesses afastam-se a cada vez
mais das questões sociais. As recentes manifestações
populares embora devam sua ocorrência às redes
sociais, mantêm o caráter do individualismo e do
isolamento, pois os participantes não criam vínculos
entre si. Expressam suas opiniões, caminham juntos,
mas é só isso.
Arendt tem por pressuposto de suas análises a condição
humana da pluralidade, ou seja, o fato de vivermos
entre homens e jamais chegarmos a ser nem um ser
humano nem mesmo os indivíduos que somos longe
da companhia dos outros. Os outros, tanto quanto o
ambiente em que vivemos, nos constituem, daí que, se o
distanciamento interpessoal for se estabelecendo como
nova condição de existência, nossa própria humanidade
poderá sofrer o impacto de uma mutação. [...]
Disponível em: <http://www.cartaeducacao.com.br/artigo/a-ilusao-das-redes-sociais/>. Acesso em: 10 jan. 2019.