Morar na periferia é tudo, tudo de ruim em matéria de transporte coletivo. Não seria tanto
se eu tivesse um carrinho para me levar ao trabalho, mas esse é um sonho distante. O pior é
que o bairro onde moro foi tomado pelas vans, ou melhor, lotações mesmo, elas estão maiores,
mas não comportam a quantidade de infelizes (estou incluída nessa) que precisa ir trabalhar e
enfrentar o balanço das vans. Confesso que esta não é das sensações mais agradáveis desse
mundo. Perceber que a dita cuja da lotação vai encostar no próximo ponto para pegar mais
passageiros é ainda pior. Eu que não acordo mal-humorada (me orgulho disso), mas ainda tô
com sono, tiro forças não sei de onde para ser simpática e me espremo, com o cuidado de não
cair sobre o indivíduo sentado à minha frente, para deixar os novos infelizes passarem. Passa
boi, passa boiada, até que um dos últimos da fila acha ótimo o espacinho vazio que tem logo
atrás de você, sem desconfiar que aquele é justamente o lugar que você estava ocupando e
que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. O infeliz teima em ficar logo ali. Seu
braço já está com cãimbra pela posição sem jeito de quem se espreme e precisa voltar à posição
normal o mais rápido possível. O jeito é rezar para todos os santos e orixás que você conhece
e esperar que o indivíduo inconveniente tenha algum semancol e saia logo do seu lugar. Mas o
infeliz prefere ficar ali esbarrando em você - não há nada mais irritante do que fazer isso com
um desconhecido na lotação logo cedo. Você tenta tirá-lo de lá, usa o cotovelo para esbarrar
sem querer, faz cara feia... Nada adianta. Ainda bem que trabalho próximo de casa. Odeio
"lotações lotadas" logo de manhã.
Disponível em: http://mundinhodarosi.blogspot.com/ Acesso em 05 jan. 2019 (Adaptado)
A partir da leitura do texto, é correto afirmar que o principal objetivo do relato é