HIV: vitórias para uns, sentença de morte para outros
Florence Anam
Foi instituído, no dia 1º de dezembro, há 30 anos, o Dia Mundial de Luta contra a AIDS, uma data
observada desde os anos 80, quando o diagnóstico do HIV era uma sentença de morte e os antirretrovirais
que salvam vidas eram um sonho distante. A reflexão que farei a seguir é compartilhada pelas equipes de
saúde nos projetos de HIV e tuberculose da organização Médicos Sem Fronteira na África Subsaariana, em
partes da Ásia e na Europa Oriental, vislumbrando um futuro incerto.
O mundo se acostumou a notícias que apresentavam a resposta ao HIV como um sucesso.
Certamente, em alguns lugares, particularmente no norte global, não há como comparar a situação de hoje
com 30 anos atrás. Mas, se os últimos 20 anos forem conhecidos como a "revolução do tratamento do HIV"
com seus enormes avanços no acesso a fármacos e ferramentas de prevenção graças ao vigoroso
financiamento internacional, do nosso ponto de vista, tememos entrar na era do "retorno da AIDS". A
impressão geral pode ser que o pior já passou, mas isso não é verdade.
Este ano, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS) relata que 75% dos
36,9 milhões de pessoas que vivem com o HIV sabem da sua condição, em comparação com apenas dois
terços (67%) em 2015, e 59% das pessoas têm acesso ao tratamento. No entanto, um lado terrível dessa
narrativa positiva de sucesso está surgindo. O progresso global acerca do HIV permanece grosseiramente
desigual. Existem também indícios preocupantes de que os doadores de recursos financeiros internacionais
estão agora desvinculando-se da luta contra o HIV.
Quase 1.000.000 de pessoas que vivem com o HIV morreram de AIDS em 2017, apesar da ciência,
ferramentas e diagnósticos disponíveis. O número global de mortes pelas consequências da infecção do vírus
mal diminuiu nos últimos anos. A meta global de 150 mil mortes a menos por ano paira no horizonte como
uma miragem. O número de mortes por Aids em países onde MSF trabalha continua a ser surpreendente: 17
mil mortes na República Democrática do Congo, 5,1 mil mortes na Guiné, 28 mil mortes no Quênia, 39 mil
mortes no Maláui, 70 mil mortes em Moçambique e 126 mil mortes na África do Sul. Hoje, 30% a 40% das
pessoas em todo o mundo que testam positivo para o HIV e iniciam o tratamento o fazem com uma contagem
de CD4 alarmantemente baixa (abaixo de 200), um indicador de falha imunológica grave, e estão em risco de
morte.
O que é diferente hoje em dia é que grande parte das pessoas que se apresentam nas piores fases
da Aids já conhece o seu estado soropositivo, com a maioria já fazendo uso dos antirretrovirais. Nos hospitais
apoiados por MSF que atendem pacientes com Aids, boa parte deles já estava em tratamento: Kinshasa
(DRC) 71%, Conakry (Guiné) 62%, Homa Bay (Quênia) 60% e Nsanje (Maláui) 67% dos pacientes. Os
desafios inevitáveis do tratamento diário, juntamente com os sistemas de saúde que lutam para apoiá-los
adequadamente, levam a que as pessoas experimentem uma "falha no tratamento", quando interrompem o
processo ou a terapêutica deixa de funcionar para eles. Na pior das hipóteses, uma proporção significativa
desenvolveu resistência ao tratamento existente.
No entanto, sem o reconhecimento político de um número elevado e continuado de mortes por Aids,
não veremos acontecerem ações práticas necessárias para as ajudar as pessoas que vivem com o HIV.
Medidas para lidar efetivamente com a Aids "contemporânea" permanecem claramente ausentes da atual
resposta ao vírus. Centros de saúde e hospitais devem ser equipados para fornecer testes rápidos e
tratamento para pessoas em fases avançadas do HIV, e, uma vez recuperados, orientá-los de volta ao
tratamento estável ao longo da vida, com um grupo de medicamentos de segunda e terceira linha quando
necessário.
Ao mesmo tempo, observações de colegas de MSF e ativistas do HIV na África Subsaariana também
indicam os primeiros sinais do impacto mortal de uma queda acentuada no financiamento internacional que
afetará milhões de vidas nos próximos anos. Em países dependentes de doadores internacionais de recursos,
especificamente dos antirretrovirais, um déficit de financiamento internacional para o combate ao HIV e uma
redução do tratamento parecem iminentes no momento mais crucial. Enquanto os últimos 20 anos viram uma geração de vidas salvas graças à solidariedade internacional, hoje uma nova geração corre o risco de ser
perdida quando os doadores se desconectam da causa.
Sem recursos adicionais, países como a República Centro-Africana e a Guiné serão forçados a
reduzir as taxas de iniciação (quando a pessoa inicia pela primeira vez o tratamento), em vez de acelerar
urgentemente a ampliação necessária dos programas de HIV, ao mesmo tempo que enfrentam déficits de
financiamento do Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária nas suas alocações de 2018-
2020.
Muito tem sido dito recentemente sobre a importância do teste de HIV, mas ele não pode ser visto
isoladamente do atual contexto de financiamento. Sem recursos para garantir o impulsionamento e apoio ao
tratamento de pessoas com HIV, o conhecimento do estado soropositivo é um verdadeiro dilema. As pessoas
que testam positivo para o vírus devem ter acesso ao tratamento, dentro dos sistemas de saúde ou postos
comunitários com suporte para dar o atendimento. Sem compromisso político e financiamento contínuo, não
haverá aumento de testes e tratamento - nem redução de mortes relacionadas à Aids.
O Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, celebrado neste mês, é sobre solidariedade internacional com
pessoas que continuam a lutar pela sobrevivência, numa batalha contra barreiras de negligência e
discriminação. Estas são as pessoas e pacientes que precisam da nossa atenção. O Dia Mundial de Luta
Contra a Aids 2018 é sobre eles, aqueles que continuam a morrer na sombra do sucesso.
Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil> . Acesso em: 17 dez. 2018.