TEXTO III
[...]
Quando Sartre diz que “nada pode ser bom para nós
sem que o seja para todos”, ele quer dizer, precisamente,
que ao escolhermos algo, estamos optando por uma
alternativa que, dentro das condições de existência
nas quais estamos inseridos, seria a melhor opção e,
por ser a melhor, todos também poderiam optar pela
mesma. Assim, ao escolher algo, o homem cria um
modelo de homem que outros podem seguir; daí a sua
responsabilidade diante da humanidade.
O existencialismo de Sartre, ao contrário das filosofias
contemplativas, caracteriza-se por ser uma doutrina de
ação, colocando sempre o compromisso como fator
indispensável para a existência humana, uma vez
que, sem compromisso, não há projeto de ser e, sem
projeto de ser, o homem torna-se incapaz de conferir
qualquer sentido à existência. Se a intencionalidade é
a característica fundamental da consciência, ser livre é
engajar-se, comprometer-se e, enfim, responsabilizar-se.
[...]
Diante dessa constante tarefa de fazer-se, do desamparo,
da falta de fundamentos prontos e da responsabilidade
que carrega diante de si e da humanidade, a liberdade
traz ao sujeito a angústia existencial, a qual emerge no
momento da decisão. Angustia-se, pois não é capaz de
alterar as condições de existência que se lhe apresentam,
tendo de escolher, por vezes, entre o ruim e o pior e
tendo de arcar com as consequências dessa escolha;
mais que isso, também não é capaz de não realizar essa
escolha; e por fim, tem a incontornável tarefa de buscar,
em sua subjetividade imanente, ou seja, na sua pura
liberdade, os princípios que regerão sua escolha; isto é,
terá de estar diante de seu próprio nada; eis o princípio
da angústia.
CAMINHA, Lucas. Colunas Tortas.
Disponível em:<https://bit.ly/2Pq70oV> .
Acesso em: 21 ago. 2018. [Fragmento adaptado].