O tal movimento antivacina
A polêmica
Numa época em que se tornaram rotina os debates
acalorados e polarizados em redes sociais, o tema
vacinação tem ganhado cada vez mais destaque
no Brasil, principalmente após a recente decisão do
Ministério da Saúde de prorrogar a campanha contra a
influenza, devido à baixa adesão.
Chama atenção o perfil das pessoas que estão optando
por não se vacinar ou por não vacinar seus filhos: a
maioria tem ensino superior completo, se considera
bem informada sobre assuntos relacionados à saúde, e
acredita que boas condições sanitárias e alimentares a
protege suficientemente das doenças infecciosas.
O Conselho Federal de Medicina (Brasil), o Centro de
Controle e Prevenção de Doenças (EUA),e a Organização
Mundial de Saúde são algumas das organizações que emitiram comunicados se posicionando contra
movimentos antivacina e alertando sobre potenciais
consequências de baixas coberturas vacinais.
Quem decide não se vacinar usa como argumento o
princípio bioético da autonomia, pelo qual as pessoas
têm o direito de decidir (e de terem suas escolhas
respeitadas) sobre questões relacionadas a seus corpos
e suas vidas. O contraponto dos representantes da
área da saúde é o de que uma escolha individual não
poderia implicar num dano coletivo, uma vez que a
baixa cobertura vacinal compromete o efeito chamado
de imunidade de grupo: quando a vacinação em massa
de uma comunidade interrompe a cadeia do processo
infeccioso, protegendo inclusive quem não foi ou não
pode ser vacinado.
É relevante lembrar que nem toda vacina provoca
imunidade de grupo, há várias com efeitos apenas
individuais, dentre elas a do tétano, coqueluche, difteria
e raiva. Cabe ressaltar também a importância de analisar
todos os aspectos envolvidos em cada surto de doença
infecciosa imunoprevenível: campanhas vacinais
que não contemplam adequadamente populações
marginalizadas e vulneráveis, bem como o efeito de
vacinas que não se sustenta ao longo dos anos estão
relacionados a vários dos surtos recentes.
[...]
Teorias da conspiração
O famoso estudo publicado na revista Science, que
concluía que o aumento dos casos de autismo tinha
relação com vacinação – e que é exaustivamente citado
em sites – não se mostrou verdadeiro. Bem como, até
o momento, não há comprovação científica de métodos
fitoterápicos ou homeopáticos com resposta imunológica
protetora que substitua a vacinal.
Como qualquer intervenção medicamentosa, vacinas
não são 100% seguras nem 100% eficazes. Toda
ação em saúde deve ser pautada pelos princípios
da beneficência e da não maleficência, de modo a
maximizar o benefício e minimizar o dano de uma intervenção. É essencial que seja socialmente acordado
quando e como serão tolerados os danos objetivando
um determinado benefício, e que esses acordos sociais
sejam repactuados ao longo dos anos.
Numa conjuntura em que já presenciamos sucessivos
exemplos de grandes corporações cometendo crimes
motivadas por lucro, bem como de práticas controversas
de governos visando o controle de seus cidadãos,
é compreensível e até positivo que intervenções
populacionais em saúde suscitem questionamentos e
sofram de falta de legitimidade.
O que devemos exigir como cidadãos é uma vacinação
ética: baseada em pesquisas científicas que não
supradimensionem eficácia, fiscalizada por um
sistema de vigilância farmacológica que não permita a
subnotificação de efeitos adversos, e com transparência
na divulgação de políticas sobre autorização, compra e
inclusão de vacinas em calendários nacionais.
DUQUE, Mariana. “O tal movimento antivacina”. In: Revista
Fórum. 4 jul 2017. Disponível em: <https://www.revistaforum.
com.br/o-tal-movimento-antivacina/>. Acesso em: 9 nov. 2018
(Adaptação).