Leia o texto, para responder à questão.
Cor-de-rosa
O vizinho mandou pintar de cor-de-rosa sua casa, e de
azul-claro o beiral e os marcos e folhas das janelas. Esta
providência dá margem a algumas divagações, que aqui são
transmitidas ao leitor, nosso companheiro.
O ato do vizinho é muito mais importante do que lhe
parece a ele. Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que todos
nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da
beatitude perdida.
Quem pinta hoje sua casa, em vez de negociar-lhe a
demolição, cumpre uma cláusula do contrato social, observa
a boa lição urbanística e, dentro do rito milenar, satisfaz essa
velha tendência do homem a aformosear o quadro de sua
existência.
De uns anos para cá as ruas passaram a ser percorridas
por elementos suspeitos, que, avaliando em metros quadrados aéreos os terrenos onde se erguem as habitações humanas, logo procuram seus proprietários e lhes propõem botar
aquilo no chão.
A aquiescência imediata dos interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado através da destruição
de algo fundamental, como é a casa em que vivemos.
Tendo destruído essa parte do ser, as pessoas transportam os remanescentes para os ossuários erguidos apressadamente no mesmo local, e que se arrumam pelo princípio da
superposição de urnas. Aí aguardarão, talvez, até a consumação dos séculos, o dia da ressurreição das casas.
Mas o vizinho reagiu contra essa psicose grupal, e dali
sorriem pintadas de rosa as paredes de sua casa.
(Carlos Drummond de Andrade, Fala, amendoeira. Adaptado)
Os termos “aquiescência” (5° parágrafo) e “remanescentes” (6° parágrafo) têm sinônimos adequados ao contexto, respectivamente, em: