Em sua obra clássica A Interpretação dos Sonhos,
publicada em 1899, o pai da psicanálise, Sigmund Freud,
disse, com outras palavras, que os sonhos são o caminho
para o inconsciente, ou seja, para as regiões mais profundas
da mente. Agora, mais de um século depois, pesquisadores brasileiros demonstraram que os relatos sobre eles — e
não eles propriamente ditos — podem ser uma forma mais
precisa de diagnosticar doenças mentais, como esquizofrenia e transtorno bipolar. O grupo conta com o neurocientista
Sidarta Ribeiro, a psiquiatra Natália Mota, ambos do Instituto
de Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
(UFRN), e o físico Mauro Copelli, da Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE).
Ribeiro explica que o psiquiatra identifica no comportamento e na história do paciente os sinais e os sintomas de
sofrimento mental. “De acordo com a combinação deles, em
um determinado intervalo de tempo, ele pode fechar o diagnóstico, seguindo diretrizes estabelecidas por sociedades da
área”, diz.
“Mesmo assim, essa forma de exame ainda é muito
dependente da avaliação subjetiva do profissional, que pode
não ter acesso a todos os dados necessários, precisando
muitas vezes de um longo período de observação e contato”,
acrescenta Ribeiro.
A fim de criar um método para auxiliar o psiquiatra a fazer
um diagnóstico menos subjetivo e mais preciso, os pesquisadores desenvolveram formas de medir computacionalmente
certos sintomas, que tradicionalmente são detectados em um
exame do estado mental de modo pouco quantitativo.
Para testar o método, os pesquisadores gravaram os
relatos do dia (estado de vigília) e dos sonhos de 60 pacientes voluntários, atendidos no ambulatório de psiquiatria de um hospital público em Natal (RN). Eles foram divididos em três grupos: um com pessoas com
diagnóstico de esquizofrenia; outro, de bipolaridade; e o
terceiro, sem doença, que serviu de controle.
Os discursos dos pacientes foram transcritos e inseridos
em um programa de computador. Os relatos do dia dos três
grupos não foram muito diferentes uns dos outros. Quando eles contavam seus sonhos, no entanto, as diferenças
apareciam. Elas ficaram bem evidentes entre os esquizofrênicos e bipolares.
(Evanildo da Silveira. “Cientistas brasileiros criam programa para diagnosticar
esquizofrenia e transtorno bipolar através do relato de sonhos”.
Em: BBC Brasil, 10.08.2018. Adaptado)
No trecho “Os relatos do dia dos três grupos não foram
muito diferentes uns dos outros. Quando eles contavam
seus sonhos, no entanto, as diferenças apareciam”, a
expressão em destaque marca a ideia de