O texto abaixo é um fragmento de entrevista feita a Vinicius de Moraes em 1979 e servirá de
subsídio para a questão.
Você está satisfeito consigo mesmo?
Vinicius de Moraes — Bem, eu gostaria de mudar algumas coisas de mim, mas de um modo geral
não sou um sujeito de jogar fora. Tenho uma estima por mim bastante grande, sabe. Uma estima que
vem da constatação das coisas que fiz, das pessoas que eu amei, dos amigos que tive e tenho.
Considero tudo conquistas consideráveis, no cômputo geral. Às vezes tenho a imodéstia de dizer a
mim mesmo: ?Você vale a pena?. Isso sem nenhum sentimento de vaidade. Não tenho qualquer
preocupação com a glória literária. Se tivesse essa preocupação, eu trataria muito melhor das minhas
coisas. A publicação de antologia dos meus poemas pela Aguilar (editora) foi um dos partos mais
difíceis e demorados que já houve, tudo por despreocupação minha. Hoje em dia tenho uma preguiça
enorme de trabalhar, escrever.
Que tipo de sociedade você gostaria que houvesse no Brasil?
Vinicius de Moraes — Acho que uma volta a uma democracia relativa já seria muito bom! O povo
ter liberdade — isso me parece fundamental. Quer dizer, ver as pessoas felizes, contentes, com as
caras alegres, sem angústia. E, sobretudo, haver a realização, ou pelo menos um arremedo de
realização, de uma organização social mais justa, com uma melhor distribuição da riqueza, uma
reforma agrária legal. Isso eu gostaria de ver: os problemas sociais mais graves resolvidos ou, no
mínimo, colocados num bom caminho. Isso já me daria um pouco de paz, de calma, de uma
tranquilidade bastante maior do que aquela que eu tenho hoje. Eu não consigo me destacar do
problema humano.
https://www.revistabula.com/369-a-ultima-entrevista-de-vinicius-de-moraes/