Eu, na rua, com pressa, e o menino segurou no meu braço, falou
qualquer coisa que não entendi. Fui logo dizendo que não tinha,
certa de que ele estava pedindo dinheiro. Não estava. Queria saber
a hora. Talvez não fosse um menino de família, mas também não
era um menino de rua. É assim que a gente divide. Menino de
família é aquele bem-vestido com tênis da moda e camiseta de
marca, que usa relógio e a mãe dá outro se o dele for roubado por
um menino de rua. Menino de rua é aquele que quando a gente
passa perto segura a bolsa com força porque pensa que ele é
pivete, trombadinha, ladrão. (...)
Na verdade, não existem meninos de rua. Existem meninos na rua.
E toda vez que um menino está na rua é porque alguém o botou
lá. Os meninos não vão sozinhos aos lugares. Assim como são
postos no mundo, durante muitos anos também são postos onde
quer que estejam. Resta ver quem os põe na rua. E por quê.
Quem leva nossas crianças ao abandono? Quando dizemos
"crianças abandonadas" subentendemos que foram abandonadas
pela família, pelos pais. E, embora penalizados, circunscrevemos o
problema ao âmbito familiar, de uma família gigantesca e
generalizada, à qual não pertencemos e com a qual não queremos
nos meter. Apaziguamos assim nossa consciência, enquanto
tratamos, isso sim, de cuidar amorosamente de nossos próprios
filhos, aqueles que nos pertencem.
(COLASANTI, Marina. A casa das palavras. São Paulo: Ática, 2002.)
Assinale a opção em que o elemento destacado se classifica como
adjunto adverbial de lugar.