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O TENENTE MÁGICO
Havia um Tenente que fazia mágicas. Hoje deve
ser major ou coronel, se já nao passou pela mágica de ir
diretamente a general de pijama. Aprendeu o ofício com
um mestre europeu, fez o curso completo em três
"matérias”. prestidigitação, ilusionismo, e aquela outra que
se refere a escapar de algemas, lagos e prisões, que fez a
glória de Houdine, não sei que nome tenha. Eram seus
colegas de aprendizado um industrial de São Paulo e um
marinheiro. O industrial de São Paulo aprendeu o bastante
para fazer dinheiro fácil e abundante, hoje é grande
capitalista naquela praga. O marinheiro caiu no mundo, e
se já não morreu, deve estar embasbacando os papaivos
de tudo quanto é porto.
Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um
capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de
hotel. Exigíamos que o mágico se despisse, jogando
apenas de cuecas - mas ainda assim a horas tantas,
quando a sorte lhe era adversa, cometia com um passe
inesperado o irritante prodígio de fazer desaparecer todo o
baralho. Por mais que déssemos busca, não o encontrávamos - e com outro gesto seu as cartas
começavam a pingar do nariz do capitão. O capitão não
achava graça, mas como ganhava sempre, e nem podia
ser de outro modo, estava respeitada a hierarquia.
Quando saíamos com ele à rua os prodígios se
sucediam: éramos três ou quatro a entrar numa festa do
clube local, embora só dispuséssemos de um convite: o
convite era entregue por ele ao porteiro e surripiado várias
vezes para ser entregue novamente. Nao sei como fazia
isso, mas podia ficar ali o resto da noite embromando o
porteiro com a sua mágica e introduzir nos salões do clube
a população da cidade inteira.
Fazia desaparecer tudo que lhe caía nas mãos, e
os objetos surgiam nos lugares mais inesperados. Metia
um ovo inteiro na boca, como se o tivesse engolido, e o
capitão, sentindo brotar no bolso algo estranho, ia apalpar
e espatifava num gesto brusco o ovo dentro do paletó.
- Mágica besta. Faz outra que eu te ensino.
Um dia o capitão o desafiou com a sugestão de
numero inédito:
- Um mágico já engoliu meu anel e depois
devolveu.
- Isso é facil, também sei fazer: me dá o anel.
Tomou o anel do capitão, levou-o à boca e o
engoliu.
- Me dá meu anel - protestou o capitão,
procurando-o inutilmente nos bolsos.
- Eu engoli. Amanhã devolvo.
Por mais que o capitão reclamasse, afirmava que
realmente o engolira, a pedido seu. Eu não poderia jurar -
o certo é que só foi devolvido no dia seguinte.
Tamanha era a sua versatilidade no gênero de
distração a que se dedicara, que um dia o provocamos a
bater a carteira de um desconhecido - especialidade em
que também já se revelara um mestre. Aceito o desafio, já em termos de aposta, saímos a rua para escolher a vítima.
No café da esquina ele se adiantou abruptamente e foi
entrando:
- Com licença.
Deu um esbarrão num sujeito parado à porta,
pediu desculpas, depois se acercou de nós exibindo
disfarçadamente a carteira:
- Olhem aqui. Agora me paguem.
Restava devolvê-la. Nao pretendíamos que a
brincadeira fosse as últimas consequências, ficando ele
com a carteira. Alheio a tudo, o cidadão já se dispunha a
sair, quando o tenente mágico o abordou:
- Essa carteira é sua, vou lhe explicar.
O homem não quis saber de explicações. Reteve
o tenente pelo braço, chamando-o de ladrão, e começou o
bate-boca. Inutilmente procuramos intervir. Um guarda
acabou surgindo, tivemos de declinar nossa qualidade de
oficiais do Exército. Por pouco não fomos presos assim
mesmo: era um desses casos que hoje em dia terminam
em pancadaria entre civis e militares, com depredação de
delegacias e tudo mais. Pusemos a culpa no capitão e
demos o fora.
Suas mágicas atingiram o clímax no dia em que
nos revelou a mais extraordinária de suas habilidades: a
tal de escapar de cordas e laços, coisas assim. A
demonstração consistia no seguinte: depois de amarrado
fortemente numa cadeira do quarto, com voltas e mais
voltas de uma corda bem segura por muitos nos, era
colocado com cadeira e tudo atrás da porta aberta do armário, em menos de dois minutos se desvencilharia,
mas não podíamos ver como. E realmente ficou ali
estrebuchando, suando e gemendo, para ao fim de dois
minutos, controlados a relógio, saltar da cadeira. Tão
grande foi nosso pasmo, que deu na cabeça do capitão à estúpida vanglória de fazer o mesmo, pediu que o
amarrássemos como ao outro. Obedecemos - afinal de
contas ele era capitão. Pediu que saíssemos do quarto,
para tentar escapar longe de nossos olhos. Saímos e
fomos jantar. Depois do jantar esquecemos o homem e
fomos passear pela cidade. Só tarde da noite nos
lembramos e corremos ao hotel, para encontrá-lo
furibundo, tombado ao chão, ainda preso à cadeira, se
esgoelando a plenos pulmões e tentando tocar a
campainha da parede com o pé.
- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.
Não vimos coisa nenhuma. No dia seguinte o
tenente mágico conseguiu o prodígio de fazer desaparecer
para sempre o próprio capitão.
(SABINO, Fernando. O homem nu. - 46º ed. - Rio de Janeiro:
Record, 2009.)
No fragmento “- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.”
(21°§), o uso da estrutura perifrástica imprime a fala da
personagem um sentido de: