Na língua Shanenawa, para designar a cor branca, os falantes utilizam o monolexema ushe; já para a cor preta, usam o monolexema txeshe, também utilizado para referirse a “escuro”, como no exemplo jame hin txeshe, cuja glosa é “a noite é escura”. Ainda sobre os termos ushe, para branco, e txeshe, para preto, algumas curiosidades chamam a atenção. Ao contrário de muitas línguas africanas e indígenas brasileiras, ushe não ocorre na expressão referente a “homem branco”. Para isso, os falantes utilizam a palavra nawajan, cuja segmentação morfológica nos permite depreender apenas o significado da forma nawa-, ou seja, “homem estrangeiro”. Em contrapartida, a palavra txeshujan é usada em referência ao homem cuja pele é negra.
Para o vermelho, os Shanenawa usam o termo uxin. Para o amarelo, paxin, embora, a exemplo do preto, também exista um outro termo, txaxna, usado com o mesmo significado. Já as cores verde e azul são nomeadas por um mesmo e único monolexema: shena. É preciso ressaltar, entretanto, que os falantes também usam, respectivamente, as palavras shu, cujo significado é “fruta verde”, para designar o verde, e shane, que é a cor de um pássaro de plumagem azul (do qual, aliás, possivelmente se origina o nome da língua e da etnia Shanenawa), para nomear o azul.
Quanto à cor marrom, os Shanenawa reservam para denominá-la a palavra etakI. Trata-se também de um monolexema que, às vezes, costuma ser usado para denominar uma outra cor: o violeta mais avermelhado.
Para o rosa, a língua utiliza o termo uximafa. Esse, porém, não é um monolexema, pois é constituído das formas uxin, referente a “vermelho”, e mafa, que significa “claro”. Assim, o nome que expressa rosa, nessa língua, é um termo de cor secundário. O mesmo acontece com as cores alaranjada e violeta. O alaranjado é chamado de shushara, sendo a forma shu referente ao significado “fruta verde”, enquanto shara significa “escuro”. Isso, aliás, leva-nos a concluir que os Shanenawa têm predileção por cores de menor saturação, haja vista que a palavra shara também pode significar “bonito” ou “bom” em sua língua materna.
É interessante observar que, na língua Shanenawa, não existe uma palavra que expresse a ideia de cor. Quando um falante deseja dizer que uma cor é a de um determinado objeto, por exemplo um que tenha a cor do urucum, ele usa o próprio objeto como referência e emprega a expressão paxinti kuskara, cuja glosa é “parecido com o urucum” ou “da cor do urucum”.
Fonte: Ciências & Cognição (Artigo Científico) - Adaptado