Texto para a questão
A promessa de autonomia lançada pelo Esclarecimento –
de que a humanidade poderia libertar-se das amarras do mito
e da tradição pelo uso ousado da razão – sempre carregou
consigo uma sombra. Por um lado, o projeto iluminista
aspirava a um mundo mais justo e livre; por outro, a razão que
deveria emancipar mostrou sua face instrumental,
convertendo-se em ferramenta de cálculo e dominação. É
nessa encruzilhada, entre promessa e catástrofe, que a
inteligência artificial emerge como herdeira e ápice desse
processo, levando ao limite a lógica da quantificação e da
eficiência. Ao adentrar o território da psicoterapia, a IA não
apenas testa os limites de sua aplicabilidade, como também
levanta uma questão: é possível traduzir o sofrimento humano
em dados e protocolos?
Cristian Arão e Nanci Nakamura. O que não se programa: IA,
psicanálise e os limites do método científico. Revista Cult.
04/05/2026. Adaptado.