O texto seguinte servirá de base para responder à questão
Proibir redes sociais para jovens não será solução
mágica', diz psicóloga canadense
"É muito fácil vender histórias assustadoras para os pais.
Nós somos um grupo ansioso", diz a psicóloga
canadense Candice Odgers em um TED Talk que já teve
mais de 260 mil visualizações desde que foi lançado, em
junho.
Odgers se refere à ideia que ganhou força nos últimos
anos de que smartphones e redes sociais estão por trás
de um aumento nas taxas de ansiedade, depressão e
outros problemas de saúde mental entre crianças e
adolescentes.
Os possíveis efeitos nocivos dessas tecnologias são
fonte de preocupação não apenas para pais e mães,
mas também para governos ao redor do mundo, muitos
dos quais vêm adotando restrições ao uso desses
serviços pelos mais jovens.
No Brasil, o Discord suspendeu a funcionalidade de
transmissões ao vivo (lives) na plataforma recentemente,
cumprindo uma determinação da Agência Nacional de
Proteção de Dados (ANPD).
A decisão ocorreu após uma adolescente de 13 anos ter
sido induzida à automutilação e ao suicídio durante
transmissões em grupos na plataforma.
Em entrevista concedida antes da decisão da ANPD,
Odgers, professora da Universidade da Califórnia em
Irvine (UCI), nos EUA, especialista em psicologia do
desenvolvimento e há 25 anos estuda a saúde mental de
crianças e adolescentes, argumenta que proibições com
a justificativa de proteger a saúde mental não são baseadas em evidências científicas.
"Estudo a saúde mental de adolescentes há muito
tempo, e o que realmente me surpreende nesse debate
é a distância enorme que existe entre a narrativa
dominante quando se fala sobre os efeitos das redes
sociais e o que a grande maioria dos estudos encontrou
até hoje", diz Odgers à BBC News Brasil.
Odgers enfatiza que as empresas de tecnologia devem
ser responsabilizadas por garantir a segurança das
plataformas e que é preciso mais regulamentação.
No entanto, ela afirma que, quando estudos mostram
uma associação entre redes sociais e a saúde mental
dos jovens, esta é muito pequena e tende a desaparecer
após levados em conta outros possíveis fatores. Além
disso, mesmo quando indicam correlações, não fica clara
a direção da relação.
Segundo ela, proibir smartphones e redes sociais não vai
resolver o problema e pode até ter o efeito contrário, ao
ignorar causas mais complexas, impedir que se pense
em outras soluções e empurrar os jovens para espaços
menos regulados.
Odgers não é a única a questionar o foco nas redes. Um
comitê da Academia Nacional de Ciências dos EUA
estudou o tema por um ano e concluiu que pesquisas
sobre a relação entre redes sociais e saúde mental
mostram "efeitos pequenos" e "associações fracas", que
podem ser "influenciados por uma combinação de
experiências boas e ruins".
"Ao contrário da narrativa cultural predominante de que
as redes sociais são universalmente prejudiciais aos
adolescentes, a realidade é mais complexa", disseram os
autores.
Mas propostas para restringir o acesso de jovens às
redes continuam ganhando apoio, diante de temores
sobre os possíveis impactos de um ambiente online onde
muitas vezes há risco de bullying, assédio e abuso
sexual, conteúdos de teor extremo e outras ameaças.
Segundo o Pew Research Center, 56% dos adultos nos
Estados Unidos são a favor de proibir o uso de redes
sociais por menores de 16 anos, e 77% apoiam a
proibição de celulares em sala de aula.
No ano passado, a Austrália se tornou o primeiro país do
mundo a proibir menores de 16 anos de usar plataformas
como Facebook, Instagram, Snapchat, X, TikTok,
YouTube e outras.
Desde então, diversos países, entre eles França, Reino
Unido e Canadá, adotaram ou passaram a estudar
algum tipo de restrição.
No Brasil, entrou em vigor em março o ECA Digital
(Estatuto Digital da Criança e do Adolescente), que não
impede o uso das redes por menores, mas estabelece
uma série de restrições de conteúdo e controles.
Depois de anos estudando o dia a dia dos adolescentes
em seus smartphones, ela ressalta que eles são
resilientes e destaca os avanços nos últimos 20 anos,
como queda nas taxas de violência, consumo de álcool e gravidez na adolescência.
"Os adolescentes de hoje são incríveis", diz Odgers no
TED Talk, intitulado What we're getting wrong about kids
and tech ("O que estamos entendendo errado sobre as
crianças e a tecnologia", em tradução livre).
Para a psicóloga, que é mãe de dois adolescentes, a
maneira de ajudar os jovens é estabelecer expectativas
altas e apoiá-los para que consigam alcançá-las.
PROIBIR redes sociais para jovens não será solução mágica', diz
psicóloga canadense [adaptado]. BBC News Brasil, [S. l.], ago. 2026.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn0nkrdgnx2o.
Acesso em: 26 ago. 2026.