Leia atentamente o texto a seguir para responder à questão
As bibliotecas devem recusar obras produzidas por inteligência artificial?
Por Leonardo Assis, pesquisador do Laboratório de Cultura, Informação e
Sociedade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP
Nos últimos anos, a inteligência artificial generativa deixou de ser apenas uma curiosidade tecnológica
para ocupar um papel crescente na produção da informação. O primeiro impacto desse fenômeno foi
percebido no campo da comunicação científica. A partir de 2022, artigos, resumos, revisões de literatura e
diferentes tipos de textos passaram a ser produzidos com auxílio desses sistemas, inaugurando um novo
momento na história da produção do conhecimento.
Agora, essa mesma discussão chega a outro espaço. Ela sai do ambiente predominantemente digital
da produção informacional e alcança uma dimensão concreta e pública: os acervos das bibliotecas.
Recentemente, um estudo realizado nos Estados Unidos com cerca de 700 bibliotecas públicas
procurou compreender como essas instituições estão lidando com materiais produzidos por inteligência
artificial. Os resultados revelaram um cenário de incertezas. Algumas bibliotecas declararam não aceitar
esse tipo de material em seus acervos. Outras ainda tentam entender como identificar, avaliar e organizar
essas produções.
A questão parece simples: obras produzidas por inteligência artificial devem ou não fazer parte dos
acervos das bibliotecas? Mas talvez essa não seja a pergunta mais interessante.
A simples exclusão pouco acrescenta ao debate. É compreensível que bibliotecas estejam
preocupadas com a qualidade da informação, a confiabilidade dos conteúdos e os critérios utilizados para
selecionar aquilo que será preservado e disponibilizado ao público. No entanto, a recusa não responde a
uma questão mais profunda: o que torna uma obra digna de ser preservada?
Se olharmos para a história das bibliotecas, perceberemos que a autoria nunca foi o único critério
utilizado para legitimar uma obra. Diversos textos filosóficos chegaram até nós com autoria incerta
ou contestada. O mesmo pode ser dito de obras religiosas que atravessaram séculos sendo traduzidas,
reinterpretadas e transmitidas por diferentes grupos sociais. Ainda assim, continuam presentes em
bibliotecas do mundo inteiro.
O que garantiu a permanência desses documentos não foi apenas a certeza sobre quem os escreveu.
Foi o significado que adquiriram ao longo do tempo. Talvez a pergunta não seja quem escreveu esta obra?,
mas por que esta obra é significativa para uma comunidade?. Essa mudança de perspectiva desloca o
debate da tecnologia para a cultura.
Ao longo da história, inúmeras obras foram preservadas porque determinados grupos sociais lhes
atribuíram relevância intelectual, religiosa, política, científica ou simbólica. Bibliotecas não preservam apenas
autores. Bibliotecas preservam significados.
Também é importante reconhecer que a produção intelectual contemporânea já ocorre em
ambientes profundamente mediados por tecnologias. Editores de texto corrigem frases automaticamente.
Softwares sugerem estruturas narrativas. Programas editam imagens. Algoritmos organizam
conteúdos e influenciam processos criativos. A inteligência artificial não inaugura essa mediação tecnológica
da cultura. Ela amplia sua escala e sua capacidade de intervenção.
Isso não significa ignorar os riscos. Obras produzidas por inteligência artificial exigem mecanismos
de avaliação, transparência e contextualização. Bibliotecas precisam desenvolver formas de identificar
esses materiais, compreender seus processos de produção e estabelecer critérios adequados para sua
seleção e organização. Trata-se de uma preocupação legítima e necessária. Mas a simples recusa talvez seja
insuficiente.
Se determinadas produções passarem a influenciar comunidades, formar opiniões, registrar
experiências, expressar identidades ou representar momentos históricos específicos, elas inevitavelmente
se tornarão objetos de interesse para bibliotecas, pesquisadores e instituições de memória. Nesse ponto, a
discussão deixa de ser apenas tecnológica. O que está em jogo é a própria construção do valor cultural.
Uma obra não se torna relevante apenas porque foi produzida por um ser humano. Ela se torna
relevante quando uma sociedade passa a reconhecê-la como importante para compreender o mundo,
transmitir conhecimentos, construir identidades ou preservar memórias. Por essa razão, a questão central
não parece repousar na aceitação ou rejeição desses materiais. A questão central está em compreender
quais deles serão capazes de adquirir significado social ao longo do tempo.
Bibliotecas sempre preservaram aquilo que diferentes sociedades consideraram relevante para sua
memória e para sua produção simbólica. O desafio colocado pela inteligência artificial é decidir se algumas
dessas novas produções também serão reconhecidas dessa forma.
No fundo, essa não é apenas uma discussão do campo dos Estudos da Informação. É uma discussão
da própria sociedade sobre confiança, legitimidade, memória e cultura. O que estamos debatendo não
é apenas a presença da inteligência artificial nas bibliotecas, mas quais produções serão consideradas
significativas para nossa experiência coletiva e, consequentemente, dignas de serem preservadas para as
próximas gerações.
Talvez o verdadeiro desafio não seja descobrir se uma inteligência artificial pode produzir uma obra.
O desafio talvez seja compreender quais produções geradas por inteligência artificial a sociedade decidirá
transformar em patrimônio cultural.
Fonte: https://jornal.usp.br/artigos/as-bibliotecas-devem-recusar-obras-produzidas-por-inteligencia-artificial/ Acesso em 15 ago. 2026.
(Adaptado)