Extremos do planeta caminham para o perigoso ponto de não retorno
Carlos Nobre e Durwood Zaelke
O atual cenário de guerra e o clima de tensão entre países importantes na geopolítica mundial têm
afastado a crise climática global do noticiário diário. A proximidade da Conferência das Nações Unidas sobre
as Mudanças Climáticas (COP30), no entanto, traz o tema para a ordem do dia, diante da alarmante situação
de dois importantes extremos ambientais da Terra: a floresta amazônica e a tundra do Ártico — um bioma
localizado no extremo norte do planeta, coberto quase que exclusivamente por gelo. Ambos enfrentam riscos
reais de ultrapassar o chamado ponto de não retorno climático, situação em que os danos ambientais se
tornam irreversíveis.
Ainda que separados por milhares de quilômetros, esses dois biomas compartilham uma ligação
fundamental: estão profundamente ameaçados pelo aumento acelerado da temperatura global e pelas
emissões de gases de efeito estufa (GEE), especialmente o metano. Embora similar ao dióxido de carbono
(CO2), ele permanece na atmosfera por cerca de uma década, em comparação a centenas de milhares de
anos do CO2, mas absorve 86 vezes mais energia solar, contribuindo para o efeito estufa e impactando
severamente o meio ambiente. Os prejuízos causados rompem limites geográficos e socioambientais,
afetando o agronegócio e a economia de forma geral.
Como sabemos, a Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e tem um papel fundamental na
regulação do clima terrestre. Além de manter o ciclo das chuvas e abrigar uma biodiversidade única, ela
funciona como "sumidouro de carbono". É um processo natural que absorve e armazena CO2 da atmosfera.
O desmatamento ilegal, juntamente com os incêndios florestais, está reduzindo a capacidade da Amazônia
de absorver CO2 e nos aproxima de um colapso ecológico que pode ser irreversível.
Do outro lado do hemisfério, no Norte, o Ártico está aquecendo quatro vezes mais rápido do que a
média global e, com isso, o gelo do Ártico e a tundra terrestre estão derretendo a um ritmo preocupante. Essa
camada marinha de água congelada é altamente reflexiva, e a substituição desse grande escudo branco por
um oceano mais escuro acarreta mais aquecimento por conta da absorção do calor, em um efeito de
retroalimentação autoamplificadora. A neve e o gelo terrestres no Ártico também são reflexivos e, quando
derretem e são substituídos por terra mais escura, desencadeiam outro ciclo de retroalimentação
autoamplificadora. Além disso, neste bioma, conhecido como "permafrost", o aquecimento do solo congelado
há milênios corre o risco de liberar vastas reservas de metano e CO2.
A conexão entre esses dois biomas revela que a crise climática não é localizada, é global.
A ciência nos mostra o que está acontecendo e o futuro do planeta depende das escolhas que fazemos hoje.
Se chegarmos a esse ponto de não retorno — e estamos caminhando céleres para isso —, a Amazônia e o
Ártico não conseguirão mais se regenerar. Nesse grave cenário que se avizinha, mesmo se reduzíssemos
drasticamente as emissões, o sistema climático seguiria aquecendo por conta própria. Se esse limite for
ultrapassado, cerca de 70% da Amazônia pode se degradar nas próximas décadas, tornando a floresta
inviável.
Evitar esse ponto crítico requer ação imediata para mitigar o metano e outros poluentes climáticos de
curta duração, desacelerando o aquecimento mais próximo. Nesse sentido, estudos do Instituto de
Governança e Desenvolvimento Sustentável (IGSD) indicam que mitigar o metano e outros superpoluentes
climáticos pode evitar quatro vezes mais aquecimento em 2050 do que cortar apenas o CO2.
No ano em que o Brasil sedia a COP30, em Belém, há um apelo crescente para que o país lidere uma
nova abordagem para mitigar os superpoluentes climáticos de curto prazo. Isso inclui a exigência para que
as empresas de óleo e gás limitem imediatamente suas emissões de metano e desencorajem fortemente a
exploração de novos combustíveis fósseis, reconhecendo que as reservas existentes hoje são muito maiores
do que podem ser queimadas mantendo o planeta relativamente seguro.
A impossibilidade de atingir a meta firmada em 2015 no Acordo de Paris — de frear o aumento da
temperatura média global em até 1,5°C — é um estímulo para que sigamos em busca de uma transição justa
e inclusiva para as próximas gerações. Cada dia é importante para não recebermos uma conta impagável e
sem retorno, em um futuro que está mais próximo do que se imagina.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/. Acesso em: 05 set. 2025