PEQUENAS E GRANDES ESPERANÇAS
Pensando (ou lembrando) bem, não foram tão
verdes assim. A memória tem sempre essa
tendência otimista de filtrar as lembranças más
para deixar só o verde, o vivo. Antigamente,
sempre era melhor, ainda que não fosse. Talvez
porque já esteja, lá, tudo solucionado e a gente
possa se ver, no tempo, como quem vê uma
personagem num livro ou filme: aconteça o
que acontecer, há um fim definido,
predeterminado. Essa espécie de improvisação
do agora, do que está sendo moldado, causa
muito mais angústia. Não temos, como no
samba, a menor ideia de como será o amanhã.
Encontrar um único adjetivo para os anos 70
não é tão fácil assim. Facílima é a expressão
“anos 70”, como se pudéssemos espremer
aqueles dez anos em um único significado,
ignorando as nuances todas. Os dias em que
nada parecia acontecer e não estávamos dentro
dos tais anos 70: por trás de circunstâncias
históricas, nomes e datas, estávamos dentro de
um tempo que ainda não ganhara uma forma
exata. Se foram duros? Foram, foram duros.
Mas foram também cheios de sonhos e
encontros e pequenas e grandes esperanças.
Foram anos em que não se podia viver muito
para fora: a repressão política nos empurrava
para dentro. Nesse movimento, havia duas
opções principais e radicais: ou você caía de
cabeça nas drogas ou mergulhava na
clandestinidade política. O que ligava os dois
comportamentos era uma vontade poderosa de
mudar o país e o planeta, fosse através do ácido
lisérgico nas caixas-d’água das cidades, fosse
pela revolução do proletariado. Verde mesmo,
verde clarinho, desse quase água, era ter perto
de vinte anos e não saber que se sabia muito
pouco das ditas coisas da vida. Justamente por
isso, enfrentar de peito aberto todos os riscos
de dentro ou de fora da própria cabeça,
esgueirando-se entre paranoias quase sempre
reais. Não tínhamos ainda essas marcas
deixadas pelos que desistiram, se mataram,
foram presos, torturados, assassinados, enlouqueceram — enquanto dentro de nós
pequenas partes iam também desistindo, se
matando, sendo presas, torturadas,
assassinadas, enlouquecendo. Não ter essas
marcas era verde. Verde era ainda estar inteiro
e pronto para a luta, embora não parecesse. É
por isso que, quando a barra pesa, gosto de
pensar que dentro do agora talvez exista
também um verde qualquer, que não estamos
vendo. Só veremos quem sabe quando
pudermos aprisionar estes anos num
pacotinho, carimbá-lo e colocar na prateleira
da História com o título de “anos 80”. Ficarão
mais leves, assim batizados?
ABREU, Caio Fernando. O melhor de Caio
Fernando Abreu. 1. ed. - Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2015.
Assinale a opção em que a classificação está de
acordo com a colocação do pronome oblíquo: