O fragmento da obra O cortiço, de Aluísio Azevedo, servirá como base para responder
a questão:
[...]
Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se diversos moradores do cortiço,
jornaleiros de baixo salário, pobre gente miserável, que mal podia matar a fome com o
que ganhava. Ainda assim não havia entre eles um só triste. A mulata convidou-os logo
a comer um bocado e beber um trago. A proposta foi aceita alegremente.
E a casa dela nunca se esvaziava.
Anoitecia lá.
O velho Libório, que ninguém sabia ao certo onde almoçava ou jantava, surgiu
do seu buraco, que nem jabuti quando vê chuva.
Um tipão, o velho Libório! Ocupava o pior canto do cortiço e andava sempre a
fariscar os sobejos alheios, filando aqui, filando ali, pedindo a um e a outro, como um
mendigo, chorando misérias eternamente, apanhando pontas para fumar no cachimbo,
cachimbo que o sumítico roubara de um pobre cego decrépito. Na estalagem diziam
todavia que Libório tinha dinheiro aferrolhado, contra o que ele protestava ressentido,
jurando a sua extrema penúria. E era tão feroz o demônio naquela fome de cão sem
dono, que as mães recomendavam às suas crianças todo o cuidado com ele, porque o
diabo do velho, quando via algum pequeno desacompanhado, punha-se logo a rondá-lo,
a cercá-lo de festas e a fazer-lhe ratices para o engabelar, até conseguir furtar-lhe o doce
ou o vintenzinho que o pobrezito trazia fechado na mão.
Rita fê-lo entrar e deu-lhe de comer e de beber; mas sob a condição de que o
esfomeado não se socasse demais, para não rebentar ali mesmo.
Se queria estourar, fosse estourar para longe!
Ele pôs-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os lados, como
se temesse que alguém lhe roubasse a comida da boca. Engolia sem mastigar,
empurrando os bocados com o dedo, agarrando-se ao prato e escondendo nas algibeiras
o que não podia de uma só vez meter para dentro do corpo.
Causava terror aquela sua implacável mandíbula, assanhada e devoradora;
aquele enorme queixo, ávido, ossudo e sem um dente, que parecia ir engolir tudo, tudo,
principiando pela própria cara, desde a imensa batata vermelha e grelhada que
ameaçava já entrar-lhe na boca, até as duas bochechinhas engelhadas, os olhos, as
orelhas, a cabeça inteira, inclusive a sua grande calva, lisa como um queijo e guarnecida
em redor por uns pelos puídos e ralos como farripas de coco.
Firmo propôs embebedá-lo, só para ver a sorte que ele daria. O Alexandre e a
mulher opuseram-se, mas rindo muito; nem se podia deixar de rir, apesar do espanto,
vendo aquele resto de gente, aquele esqueleto velho, coberto por uma pele seca, a
devorar, a devorar sem tréguas, como se quisesse fazer provisão para uma outra vida.
De repente, um pedaço de carne, grande demais para ser ingerido de uma vez,
engasgou-o seriamente. Libório começou a tossir, aflito, com os olhos sumidos, a cara
tingida de uma vermelhidão apoplética. A Leocádia, que era quem lhe ficava mais perto,
soltou-lhe um murro nas costas.
O glutão arremessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne já meio triturado.
Foi um nojo geral.
— Porco! gritou Rita, arredando-se.
— Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo! disse Porfiro. Parece que
nunca viu comida, este animal!
E notando que ele continuava ainda mais sôfrego por ter perdido um instante: —
Espere um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Há muito aí com que te fartares
por uma vez! Com efeito!
Disponível em: www.pt.wikisource.org Acesso:21/02/2020.
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