O livro didático como professor
A ideia de substituir os livros didáticos escolares por
material retirado diretamente da internet suscitou reações
variadas. Editores de livros escolares e livrarias veem no projeto uma ameaça mortal para uma indústria que dá trabalho
a milhares de pessoas. Por mais solidário que me sinta em
relação a editores e livrarias, é possível dizer que, pelas mesmas razões, muitas outras classes de trabalhadores poderiam protestar. Se a história avançar inelutavelmente nessa
direção, esta força de trabalho teria de reciclar-se de alguma
forma.
Outra objeção é que a iniciativa prevê um computador
para cada aluno e é duvidoso que o Estado possa arcar com
essa despesa, e, se os pais tivessem que arcar com ela, gastariam mais do que gastam com livros didáticos. Por outro
lado, se cada turma tivesse somente um computador para
todos, cairia o aspecto de pesquisa pessoal que poderia
constituir o fascínio dessa solução.
Mas o problema é outro. É que a internet não se destina a
substituir os livros, mas é apenas um formidável complemento
a eles e um incentivo para ler mais. O livro continua a ser
o instrumento príncipe da transmissão e disponibilidade do
saber e os textos escolares representam a primeira e insubstituível ocasião de educar as crianças ao uso do livro. Além
disso, a internet oferece um repertório fantástico de informações, mas não os meios para selecioná-las, e a educação
não consiste apenas em transmitir informações, mas também
em ensinar critérios de seleção.
Esta é a função do professor, mas é também a função
do texto escolar, que oferece exatamente um exemplo de
seleção realizada no grande mar de toda informação possível. Se as crianças não aprendem isso, ou seja, que cultura
não é acúmulo, mas seleção e discriminação, não há educação, apenas desordem mental.
(Humberto Eco. Pape Satàn Aleppe: crônicas de uma sociedade líquida.
Rio de Janeiro: Record, 2017. Adaptado)