Concurso:
Prefeitura de Salvador - BA
Disciplina:
Português
Quando retirei a faca da mala de roupas, embrulhada em um
pedaço de tecido antigo e encardido, com nódoas escuras e um nó
no meio, tinha pouco mais de sete anos. Minha irmã, Belonísia, que
estava comigo, era mais nova um ano. Pouco antes daquele
evento, estávamos no terreiro da casa antiga, brincando com
bonecas feitas de espigas de milho colhidas na semana anterior.
Aproveitávamos as palhas que já amarelavam para vestir feito
roupas nos sabugos. Falávamos que as bonecas eram nossas filhas,
filhas de Bibiana e Belonísia. Ao percebermos nossa avó se afastar
da casa pela lateral do terreiro, nos olhamos em sinal de que o
terreno estava livre, para em seguida dizer que era a hora de
descobrir o que Donana escondia na mala de couro, em meio às
roupas surradas com cheiro de gordura rançosa. Donana notava
que crescíamos e, curiosas, invadíamos seu quarto para perguntar
sobre as conversas que escutávamos e sobre as coisas de que nada
sabíamos, como os objetos no interior de sua mala. A todo instante
éramos repreendidas por nosso pai ou nossa mãe. Minha avó, em
particular, só precisava nos olhar com firmeza para sentirmos a
pele arrepiar e arder, como se tivéssemos nos aproximando de uma
fogueira.
VIEIRA JUNIOR, Itamar. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2019. p. 13
No fragmento inicial do romance Torto arado, a construção literária da memória da infância apoia-se, entre outros recursos, na alternância entre formas verbais do pretérito.
Esse recurso contribui para a organização da narrativa ao
No fragmento inicial do romance Torto arado, a construção literária da memória da infância apoia-se, entre outros recursos, na alternância entre formas verbais do pretérito.
Esse recurso contribui para a organização da narrativa ao