O texto a seguir refere-se à questão.
Costuma-se atribuir à clareza de um texto uma
espécie de transparência: quanto mais claro ele
parece, menor teria sido o esforço necessário para
produzi-lo. A impressão é enganosa. Em muitos
casos, a simplicidade percebida pelo leitor resulta
justamente de um trabalho complexo de seleção,
organização e reescrita. Quem escreve precisa decidir
não apenas o que dizer, mas também o que excluir,
em que ordem apresentar as informações e quais
relações deixar explícitas para que o leitor possa
reconstruir o percurso proposto.
Isso não significa que todo texto deva antecipar cada
dúvida possível. Se assim fosse, a tentativa de
eliminar
qualquer
margem de interpretação
produziria textos intermináveis e, paradoxalmente,
menos eficientes. Há informações que podem
permanecer implícitas porque o contexto permite
recuperá-las;
outras,
porém, precisam ser
formuladas de modo mais explícito, sobretudo
quando sua omissão compromete a continuidade do
sentido. Escrever com clareza, portanto, não consiste
em dizer tudo, mas em avaliar o que o leitor necessita
para estabelecer relações entre as partes do texto.
Essa
avaliação
revela
uma
característica
frequentemente esquecida da escrita: embora o autor
produza o texto em determinado momento, ele
precisa imaginar um interlocutor que ainda não está
diante dele para pedir esclarecimentos. Na conversa
cotidiana, uma expressão ambígua pode ser
reformulada imediatamente, um gesto pode
complementar uma frase e uma pergunta pode
revelar que determinada informação não foi
compreendida. Na escrita, parte desses recursos
desaparece ou se transforma. Por isso, cabe ao autor
construir linguisticamente algumas das condições
que, na interação face a face, poderiam ser
negociadas durante o próprio diálogo.
Revisar um texto, nessa perspectiva, é mais do que
corrigir desvios gramaticais. É retornar ao que foi
escrito procurando lê-lo também a partir de uma
posição diferente daquela de quem o produziu. Nem
sempre se consegue fazê-lo plenamente, pois o autor
conhece relações que talvez não tenham sido
suficientemente marcadas no texto. Ainda assim, é
esse deslocamento que permite perceber lacunas,
ambiguidades e conexões que pareciam evidentes
durante a escrita, mas que podem não sê-lo para
quem lê.
Considerando a progressão argumentativa do
texto e as relações estabelecidas entre suas partes,
assinale
a
alternativa
que apresenta uma
interpretação adequada da tese desenvolvida pelo
autor.