O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
[...]
A invenção do que podemos chamar de
presença-monstro (que é parte do negar dignidade
humana a pessoas negras e indígenas, do afirmar que
ela não é igual a uma pessoa branca, não tem a
humanidade de uma pessoa branca), no Brasil, em
perspectiva histórica, ganhará nova dimensão, nova
sofisticação, após os adventos da Lei Áurea e da
Proclamação da República — a partir da instituição da
República, esse deslocamento ganha complexidade e
amplitude maiores, mais evidentes, ciclos de novas
violências que se oportunizam como verdadeiro processo
de isolamento racial ao longo das décadas seguintes.
São dois momentos que colocam a relação entre o
Estado brasileiro e as pessoas não brancas em outro
plano.
Veja-se o que observa Érico Andrade no seu livro
Negritude sem identidade: Sobre as narrativas singulares
das pessoas negras (n-1 edições, 2023): "[...] o Estado
brasileiro se comprometerá, no pós-abolição, em
segregar o corpo negro do espaço público na forma de
uma espécie de violência preventiva em face da
'desordem'. Essa desordem acompanharia o corpo negro
em suas mais diversas manifestações culturais. A
violência preventiva designa a ação do Estado brasileiro
para marginalizar o corpo negro. Nesse sentido o corpo
negro se encontra emboscado".
Em algum momento do seu processo de dominação do
território brasileiro, essa elite burguesa, pretendendo-se
eterna Narciso-rei, e sempre ganhando com a
desordem-ordem, percebe que o grau da estigmatização
das pessoas indígenas e negras deve ser deslocado
para outro patamar e proclama: não se dialoga com
monstro — e pode ser sutil o passar da estigmatização
subalternizadora (desrespeitosa) para a invenção do
monstro, para a caçada e a condenação do monstro.
Esta solução depende do sucesso daquela.
Assim, a elite burguesa e o Estado a seu serviço
decidem por transformar o processo todo em uma
perpétua temporada de caça, destinando aos
subordinados movimentações institucionais muito sutis,
movimentações institucionais nada sutis, que adesivem
neles o rótulo de inimigo-monstro, presença-monstro, do
projeto de construção de um Brasil ideal — o que
justificará o colocar em movimento uma máquina mais
agressiva e mais bem elaborada de oprimir, uma
ideologia mais efetiva de desacreditar, de silenciar, de
esmagar, de extinguir.
Para jovens negros da periferia, tudo isso que esboço
até aqui, reforço, tem a ver com a gravidade que se
ampliará com a aprovação da redução da maioridade
penal. E isso, admitido pelo direito posto, é trágico.
[...]
(Disponível em:
https://revistacult.uol.com.br/home/mamae-o-monstro-vai-me-comer/.
Acesso em: 01 ago. 2026. Adaptado.)
De acordo com Cunha e Cintra, os pronomes
demonstrativos são empregados para lembrar a quem
ouve ou a quem lê o que já foi mencionado ou o que se
vai mencionar. É o que acontece em vários momentos do
texto para se construir a coesão textual. A respeito disso,
analise as sentenças a seguir:
I.No terceiro parágrafo, o pronome demonstrativo "esta",
em "Esta solução depende do sucesso daquela",
refere-se à "condenação do monstro". Já o pronome
demonstrativo "aquela" tem como referente "a invenção
do monstro". Desse modo, o autor do texto reforça o
sentido gradativo da enumeração anterior, a qual
consolida o projeto da elite burguesa: não basta
estigmatizar pessoas indígenas e negras, é preciso
condenar o monstro e, para isso, é preciso inventá-las
como monstros, caçá-las e, então, condená-las.
II.No quarto parágrafo , o autor escreve: "[...] a elite
burguesa e o Estado a seu serviço". Para construir a
coesão e os sentidos pretendidos, ele lança mão do
pronome "seu", acompanhando o substantivo "serviço".
Nesse contexto, o sentido que o autor elabora é de que o
Estado está a serviço da elite burguesa.
III.No quinto parágrafo, o autor usa o pronome
demonstrativo "isso" duas vezes para estabelecer a
coesão e evitar repetições desnecessárias. Na primeira
ocorrência, claramente, compreende-se que o pronome
refere-se a tudo que foi exposto ao longo do texto até ali,
o que é reforçado pela expressão "até aqui". Já na
segunda ocorrência, o pronome refere-se à "aprovação
da redução da maioridade penal".
É correto o que se afirma em: