TEXTO PARA A QUESTÃO.
Culpa: não sinta muito
A culpa não desgruda. Terminou com alguém que ainda o
amava? Culpa. Foi indiferente à dor do outro (ou, pior,
indiferente às suas conquistas)? Que feio. Não estava ao lado
dos seus pais em seus momentos finais? Perdeu a conexão com
os filhos? Acontece, mas o remorso não quer saber de
explicação.
Sejam físicas ou espirituais, nossas ausências, mesmo
involuntárias, nos corroem vida afora. E nem falei das culpas
que nos autoinfligimos por termos cedido à covardia, ao invés
de tomar a decisão que mudaria nossa história.
É mais fácil ser inimigo de si mesmo do que chutar o balde
e magoar dois ou três, se bem que a culpa não escolhe lado
neste caso. É o clássico "se ficar o bicho pega, se correr o bicho
come".
Uns 15 anos atrás, li um pequeno e ótimo livro sobre o
assunto, chamado O sentimento de culpa, de Paulo Sergio
Guedes e Julio Walz (edição dos autores). Eles me fizeram
entender a onipotência que sustenta essa relação
credor/devedor, e que a verdadeira libertação está em se
responsabilizar pelos seus atos, sem martirizar-se.
Sentir-se culpado é um desperdício de energia que é
recompensado, inconscientemente, pela importância que
estamos nos dando.
Ainda assim, de vez em quando, me pego alimentando
esse monstro chamado culpa, que ataca principalmente as
relações familiares, onde estão aqueles de quem mais
cobramos e a quem mais devemos.
São muitas promessas feitas em nome de um afeto
obrigatório e pretensamente indestrutível. Maridos e mulheres
são induzidos a manter a eternidade de um laço que, com o
passar dos anos, pode afrouxar, sem que tenha havido má-fé
de nenhuma das partes – por que se culpar?
Pais e filhos têm seus direitos e deveres atravessados pelo
que nunca pode ser previsto: os desvios naturais de rota e o
livre arbítrio de cada um, que muitas vezes destoa do que se
espera.
A culpa nem sempre nasce de uma ação incorreta ou
maldosa: ela quase sempre nos invade por não termos
conseguido realizar a expectativa do outro.
Por isso, mais uma vez, a amizade se destaca em sua
nobreza. Ninguém culpa um amigo que foi morar em outro país
ou que fica muito tempo sem dar notícias: não há abandono
nem expectativas a atender, é um gostar-se sem exclusividade
nem contrato.
Se acaso as afinidades se desfizerem, nem assim
colocaremos o dedo na cara do amigo: aceita-se em paz os
humores do destino.
Amigos não embaçam: desatam nós com habilidade e
dormem bem à noite. Raramente dão motivos para a insônia
alheia. Já as culpas geradas pelo parentesco tornam-se
existenciais e crescem como tumores.
Por dar a esse monstro insaciável o nome de amor, não
temos coragem de fazer o que se deve: deixar a culpa morrer
de fome.
Autora: Martha Medeiros - GZH (adaptado).
Considerando os sentidos de palavras e expressões
empregadas no texto, assinale a alternativa em que a relação
de antonímia contextual está corretamente indicada.