TEXTO PARA A QUESTÃO.
Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum
O fato ocorreu. Uma aluna de um curso livre reclamou que
tivera uma massagem pela manhã, minha palestra sobre arte
depois do almoço e, ainda, enfrentaria um jantar com amigas à
noite. Fazia ar de cansada. Um dia com três compromissos! Eu
soltei uma ironia: “Não sei como a senhora aguenta”. Ela sorriu
e leu como solidariedade minha frase. Mais tarde, pensei que
minha resposta era filha de uma inveja ressentida. Eu ministrava
64 aulas por semana, inclusive aos sábados à tarde. Tinha de
prepará-las e deslocar-me pela cidade. Se me oferecessem uma
jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala
climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu
teria um dia livre e feliz. A senhora, em questão, sentia genuíno
esgotamento.
Cansaço é relativo. Diz respeito às potências do sujeito e
dos seus hábitos. Quem dá 64 aulas por semana olha para
alguém que leciona 30 como um quase vagabundo. Existem
especificidades também: há pessoas que vão ao supermercado e
entram em coma, logo em seguida. O curioso não parece estar
na variedade infinita do gênero humano, todavia no fato de que
quase todo mundo se considera muito ocupado.
Meu pai trabalhou bastante. Houve um momento em que
ele cursava Direito em Porto Alegre, lecionava latim, português
em escolas maristas e era vereador em São Leopoldo (RS).
Estudava nos ônibus. Emagrecia devido ao esforço. Depois, já
com o título jurídico, atendia até a noite. Dizia a todos: “Minha
agenda é por minuto”. Era verdade pelas audiências, viagens,
consultas e compromissos. Passaram-se os anos, ele se
concentrou apenas no escritório, abandonou o magistério e a
política. Casal tradicional, ele nada fazia no nosso lar. Minha mãe
providenciava tudo. Nos últimos dez anos da sua existência,
deixou de advogar e entrou no merecido descanso. Curiosidade:
a expressão “minha agenda é por minuto” permaneceu. Aos 75
anos, seus compromissos eram ler jornais, alimentar-se, ir à
missa e jogar xadrez. O dia se esgarçava, lânguido. Sua
consciência de homem atarefado sobreviveu. Morreu tranquilo,
sem grandes atividades. Entrou na eternidade, com os minutos
contados e agenda imaginária repleta. A família adotou com
ironia o lema paterno: repetimos “minha agenda é por minuto”
para lembrar nosso amado pai e a relatividade da fala.
Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa
comum. Temos a dificuldade que a aristocracia superou há
séculos: existir sem compromissos. Melhor – a nobreza entende
como agenda o que a classe trabalhadora imagina ser lazer.
Volto à minha simpática aluna, paulista quatrocentona.
Cada atividade implica preparar-se, vestir-se, ocupar a mente e
enfrentar um novo ambiente. Eu entendo como compromisso de
fato o que gera dinheiro. Não nasci duque. Um jantar está em
escaninho diferente no cérebro. Para ela e para a Condessa Viúva
da série Downton Abbey (feita pela genial Maggie Smith),
emerge a dúvida: o que é um fim de semana? Todos os dias são
tomados de jantares, eventos, aulas. Interessante: se alguém
desejar marcar algo para a próxima semana, ela responderá
como o mais ocupado dos pediatras de um posto do SUS: “Não
posso!” Agenda é uma concepção psíquica e cultural.
Exagero? Você já se encontrou com alguém que assume o
ócio, afirma que nada faz e diz que possui o tempo todo livre?
Deve ser alguém raro... Tente marcar um teatro para hoje à noite. Todos dirão que é muito em cima da hora, mesmo não
tendo quaisquer compromissos no horizonte. Quase todos nos
consideramos extremamente ocupados. E ainda ficamos ao
celular nos elevadores para deixar claro ao mundo que a vida nos
absorve por completo.
Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm
muitos afazeres. Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo.
Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope, a rainha
da Ítaca que tinha de tecer todo dia e desfazer à noite o
realizado. Uma casa é um buraco negro de tempo. Apesar disso,
já pararam para pensar que sempre alegamos mais ocupações
do que, de fato, temos? Identifico um discurso que nem sempre
se casa com o real. É considerado chique no mundo da
glamourização do cansaço (denunciada por Byung-Chul Han)
andar rápido e consultar o celular como se nele houvesse os
códigos das armas nucleares. Sim, somos atarefados. A pergunta:
por que aumentamos ainda mais nossa ocupação? Do que nos
defendemos quando encarnamos a figura do ser sem tempo
para coisa alguma?
Convidei no fim da tarde um casal querido para um happy
hour. Meu amigo respondeu: “Com prazer, desde que você não
nos considere fáceis”. Aparentemente, ter tempo para a
felicidade pode ser visto com desconfiança, pois a pessoa poderá
ser classificada como “fácil”. Acredite: existe gente que,
podendo, aceita um convite no dia e permite-se a alegria sem
medo do julgamento. Tenho esperança em gente fácil. Os difíceis
podem ter problemas cardíacos bem mais cedo... Boa semana
para ocupados e para felizes.
Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado).