O agrupamento das pessoas em classes sociais não é, ao
contrário do que alguns pensam, "apenas uma decisão técnica
como outra qualquer". Como tudo no estudo da desigualdade,
esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não
sejam explícitas. E não é sem razão: a escolha da identificação de
classes de uma forma específica tem implicações concretas. O
problema não está apenas na terminologia usada, está também na
forma como as classes são definidas.
Quem não consegue entender isso pode fazer um exercício
simples: identifique pobres como uma classe; considere que
quase todo mundo queira erradicar a pobreza; que quase todo
mundo queira saber melhor o que é preciso para tanto; defina
como pobre 0,1% da população; nesse caso, que medida
erradicaria a pobreza? Caridade privada seria suficiente; agora
defina como pobre 99,9% da população. A medida recomendada
seria uma revolução.
Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas
dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois
pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas. Quando
se coloca uma pessoa numa classe, a tendência é que essa pessoa
passe a ser vista como todas as demais pessoas que estão naquela
classe e, em alguns casos, passe a ser tratada do mesmo modo
pelas políticas.
Qual é a diferença substantiva entre uma pessoa um
centavo abaixo da linha de renda que define os benefícios de
assistência social e outra um centavo acima? Em renda,
irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem
impactos concretos na vida das pessoas. Elas passam ou não pelo
buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas
sociais. Alguns programas chegam a ser desenhados com base
em classes, por isso o assunto não é apenas um detalhe
acadêmico.
Marcelo Medeiros. Os ricos e os pobres. São Paulo: Companhia das Letras, 2023
(com adaptações).