Maior Sorte
O médico me olhou achando graça.
"Parece até que você está indo ao cinema" comentou
sobre meu relaxamento.
Tentei falar que talvez tivesse algo a ver com a epidural,
mas as palavras não saíram, e só consegui esboçar um
sorriso indeciso. As paredes brancas eram tão claras que
me cegavam como se fosse um quarto escuro feito breu,
e logo caí num sono profundo. A próxima coisa que me
lembro foram os gritos.
Eu os ouvia através de um véu, que tornava o som oco e
distante, ainda que me perfurassem. Sua dor, eu
acredito, doía mais em mim do que em você.
De repente, como que por mágica, o silêncio reinou.
Olho para baixo e lá está você, com a cabecinha mole
que tanto me aterrorizou nos meses seguintes,
encostada no meu peito. Você era uma paz que eu
nunca soube ter. Apesar do parto tranquilo, você estava
virada. O médico não te retirou, como é de praxe, pela
cabeça, mas pela sua bundinha de neném. Ele brincou
que você nasceu com o bumbum virado pra lua, mas eu
sabia que isso não era brincadeira nenhuma. A sua
primeira sorte foi ter vindo de mim. O que são
casualidades e probabilidades se não esse conceito
místico e até vulgar que chamamos de boa ou má sorte?
Eu gostaria de entender, mas vou deixar essa para os
filósofos. Só sei que a calmaria do seu nascimento foi um
presságio de todos os trevos de quatro folhas que você
encontraria ao longo da vida. A sua segunda sorte deve
ter sido como nunca te deixei cair de maneira fatal, como
você sempre atravessou a rua de forma segura, mesmo
que soltasse as minhas mãos, que nunca deixaram de
buscar as suas, e que por sua vez só buscavam
independência. Para ficar vivo, necessita-se de uma
baita sorte. E, por te ter comigo, ganhei na loteria.
MAGALHÃES, Lívia Batista. Maior sorte. In: MALULY, Luciano Victor
Barros; MUÑOZ, Daniel Azevedo; TÔZO, Carla de Oliveira (org.).
Crônicas para ler e ouvir: número 2. São Paulo: ECA-USP, 2023.
Disponível em:
https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1
095/1000/3699 . Acesso em: 14 abr. 2026.
O texto articula ideias em diferentes camadas: o que é
dito diretamente, o que serve de apoio narrativo e o que
o leitor precisa inferir.
Nesse contexto, analise as asserções a seguir e a
relação proposta entre elas:
I.A ideia central do texto é uma reflexão sobre a sorte
como força que perpassa a vida da filha desde o
nascimento, manifestando-se em episódios concretos
narrados pela mãe.
PORQUE
II.Os episódios do parto pélvico, das mãos que buscam
as da filha e da travessia segura da rua não são o foco
principal da narrativa, mas funcionam como argumentos
secundários que sustentam e ilustram a tese central da
narradora.
A respeito dessas asserções, assinale a opção
CORRETA: