Texto 3
A cena em que um participante do BBB encurrala uma colega
num canto da despensa e tenta beijá-la não é "exceção de
reality". Acontece aos montes, todo dia, em festa, elevador,
corredor de empresa, transporte. O detalhe que dá vontade de
vomitar é outro: ali há câmeras ligadas 24 horas. Se, com
iluminação, microfone e contrato, o sujeito se sente autorizado
a fazer isso, imagine fora do enquadramento.
Na última década, parte do país aprendeu a falar de assédio,
abuso, importunação, consentimento. Há cartazes em
elevadores, alertas em bares, códigos em aplicativos, discursos
potentes. Mesmo assim, a estrutura que mantém a violência
contra a mulher segue impávida; parte dos homens se comporta
como se o corpo alheio fosse um território negociável.
Na pesquisa Visível e Invisível (Fórum Brasileiro de Segurança
Pública/Datafolha), 37,9% das mulheres relataram algum tipo
de assédio, em 2021; 46,7% em 2023 e 49,6% em 2025. No
mesmo ano, 20,5% receberam cantadas e comentários
desrespeitosos no trabalho. E quando a violência atravessa a
porta de casa, a escala não diminui: o DataSenado aponta que
3 em cada 10 brasileiras já sofreram violência doméstica.
Há uma questão fundamental: a virada de consciência
aconteceu do lado de cá. As mulheres, em larga escala,
reconhecem violência de gênero, nomeiam o abuso, trocam
ferramentas de proteção. O problema é a assimetria de impacto
que ainda alcança poucos homens para quem esse
comportamento arcaico é inaceitável e precisa ser combatido.
Para muitos, ainda é "mal-entendido", "papel do homem".
Cadê educação sobre respeito e limites (não como "palestra",
mas como formação), campanhas permanentes voltadas a
meninos e homens? Reality expulsa em 24 horas, mas na vida
aqui fora mulheres continuam morrendo.
JORGE, Mariliz Pereira. Importunação sexual ao vivo na TV. Folha de
S.Paulo, São Paulo, 20 jan. 2026. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2026/01/importuna
cao-sexual-ao-vivo-na-tv.shtml. Acesso em: 20 jan. 2026. [Adaptado].
Em textos de opinião, determinadas palavras assumem
função gramatical decisiva para a construção do sentido. No
trecho “Acontece aos montes, todo dia”, a expressão “aos
montes” classifica-se gramaticalmente como